Brasil otimista

Brasil, onda de otimismo ignora riscos internacionais, alertam especialistas

07 FEV, 2019 / JORNALISTA RESPONSÁVEL: GRAZIELI BINKOWSKI

Nem parece que estão todos sob a mesma teia da economia global: enquanto o mundo acompanha a indefinição em torno da guerra comercial entre Estados Unidos e China, a fase crítica da saída da Grã-Bretanha da União Europeia e os prejuízos causados pelo Shutdown – estimados em US$ 3 bilhões –, com risco de novos impasses, o Brasil ensaia uma lua de mel com empresários e investidores. A Bolsa de Valores de São Paulo (B3) emplaca recorde atrás de recorde e os investimentos produtivos não param de desembarcar: dados divulgados pelo Banco Central mostraram que o Investimento Direto no País (IDP) somou US$ 88,314 bilhões em 2018, melhor resultado anual desde 2012.

De acordo com dados da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil), até os micro e pequenos empresários do varejo e comércio têm demonstrado maior apetite para realizar investimentos em 2019. O indicador que mede a propensão de investimento das MPEs (micro e pequenas empresas) passou de 41,4 pontos em janeiro de 2018 para 47,9 em janeiro de 2019, uma alta de 16% na comparação anual. E a expectativa é que estes empresários também vão atrás de dinheiro para investir. Em janeiro de 2019, o indicador que mede a demanda por crédito registrou 25,1 pontos contra 21,6 pontos no mesmo mês do ano anterior, o que significa um avanço de 16%.

“A expectativa é de que a atividade econômica cresça com mais força este ano, impulsionando o consumo e, por consequência, o faturamento das empresas”, avalia o presidente da CNDL, José César da Costa.

Miguel Ribeiro de Oliveira, vice-presidente da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac), afirma que investidores têm olhado mais para as questões internas do país, como troca do governo e possibilidade de avanço de reformas, e deixado em segundo plano uma análise mais conservadora da política e da economia internacional.

“Os investidores partem atrás de oportunidades, e como enxergam uma perspectiva de recuperação da economia brasileira, continuam colocando aqui seu dinheiro”, diz Oliveira.

É um otimismo exagerado, reconhece o especialista. Isso por que um eventual agravamento da situação na economia internacional poderá afetar diretamente a economia brasileira. No pior cenário, a imposição de novas tarifas dos Estados Unidos a produtos chineses (que provavelmente seriam respondidos na mesma moeda) puxaria o freio de mão dos negócios mundiais, reduzindo o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de todos que participam do mercado global – com danos aos negócios de exportadores brasileiros.

Um novo Shutdown do orçamento americano, em razão do impasse em torno da construção do muro na divisa com o México, poderia levar o Federal Reserve (Fed, o Banco Central dos EUA) a aumentar as taxas de juros, atraindo dólares de nações emergentes ao país norte-americano. Com isso, o dólar poderia disparar no Brasil, forçando a inflação e as taxas de juros, resfriando o crescimento da economia.

“Há muitos riscos e dúvidas no cenário global, mas neste momento está relativamente sob controle. No entanto, caso haja uma piora nas relações políticas internacionais, ou ainda se o governo brasileiro não conseguir alimentar a expectativa de recuperação do país, os investidores imediatamente começam a deixar o Brasil”, avalia Miguel Ribeiro Oliveira.

 



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