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 Aderir à GRI é um investimento

De 2007 a 2008, o Global Reporting Initiative (GRI) passou a ser utilizado como modelo de relatório de sustentabilidade por 72 empresas brasileiras. Isso pode ser entendido como um marco, já que em 2005, o país contabilizava sete adesões ao relatório. No mundo, cerca de 2000 organizações usam o modelo GRI. Pode parecer pouco para o Brasil, mas a difusão do método por aqui tem tido um ritmo exponencial, de acordo com a coordenadora das atividades da organização GRI no Brasil, Glaucia Terreo, através de uma parceria com o Instituto Ethos. A explicação de Glaucia para a proporção da expansão, após a primeira adesão (da Natura) em 2001, é que as empresas brasileiras precisam, cada vez mais, se diferenciar. “Temos muitos problemas, e a GRI é uma forma de mostrar como a empresa se posiciona em relação a eles, afirma a coordenadora.

Segundo Glaucia, a singularidade da GRI em relação a outros modelos de relatórios de sustentabilidade (como por exemplo os modelos nacionais Ethos e Ibase), é o seu processo considerado multi-stakeholder, ou seja, a rede de trabalho envolvida na produção da GRI. Os especialistas da Key Associados, empresa do grupo Totum, Alexandre Hernandez e Marcos Torres, explicam que a GRI é adotada como modelo de relatório justamente para servir de divulgação das práticas sustentáveis da empresa para todas as partes consideradas interessadas, ou seja, os stakeholderes. Por isso, a adoção desse modelo está relacionada aos conceitos de transparência e comunicação, vindos da sustentabilidade.

 A GRI foi criada em 1997 como um projeto do CERES em parceria com o PNUMA¹, com o objetivo de promover o relatório como “tripple bottom line”, conceito relacionado à definição de desenvolvimento sustentável, que pauta as práticas humanas pelo equilíbrio entre a economia, o social e o ambiental, buscando a conservação das capacidades futuras do planeta. Glaucia observa que o grande desafio da GRI, como modelo representativo da divulgação dessas práticas, era torná-lo legitimamente global. A estrutura atual da GRI, que no Brasil teve dois projetos pilotos e desde 2006 tem a primeira e atual versão final, objetiva a padronização global das informações, ao mesmo tempo, que adequa a divulgação às necessidades dos stakeholders em cada organização.

O modelo da GRI é composto de duas partes. A primeira reúne os elementos estruturantes do relatório, como a apresentação do perfil da empresa, o escopo, limites do relatório. Nessa parte estão os princípios da definição do conteúdo. A segunda parte é composta de indicadores. Eles são separados por temas: econômicos, ambientais, relações trabalhistas, direitos humanos, sociedade e responsabilidade sobre produtos (veja em detalhes quantas questões por tema)². Para fazer o relatório são necessárias as duas partes. Na segunda não há obrigatoriedade de que todos os 115 itens sejam respondidos. Há um mínimo entre os de 49 itens entre os 79 do grupo das questões consideradas essenciais, e 30, entre os 45 adicionais.

É essa a característica, chamada de materialidade, que torna a GRI singular. A empresa vai levantar os dados e divulgar aqueles indicadores que geram valor para a companhia, após um diálogo com todos os públicos interessados. É exatamente essa forma que o relatório é implementado pela companhia que gera um dos mais importantes benefícios e que dá a GRI um status, um poder de ação na visão de desenvolvimento sustentável. A pesquisadora, economista e diretora da Mais Projetos, Rosana Zenezi Moreira, observa que a GRI está alinhada ao contexto atual, em que temos a necessidade de enxergar o futuro, de fazer tudo muito rápido, de mitigar riscos e ainda de reduzir custos. A GRI também acompanharia a forma de ação das organizações e governo, que é através de acordos, como por exemplo, as iniciativas das Metas do Milênio, do Pacto Global, do Protocolo de Kyoto, da Agenda 21.

No entanto, a GRI só é legitima e beneficia a empresa, além do aumento da transparência e padronização internacional da divulgação das práticas de sustentabilidade, se é considerada como um processo em desenvolvimento e se é incluída na gestão. Os especialistas da Key Associados e a diretora do Mais Projeto explicam que a incorporação da GRI na gestão da companhia vai além da coletar de dados relativos a práticas de sustentabilidade. Ela auxilia a empresa a avaliar aquelas práticas que ainda não são eficientes, ou ainda não existem, e acompanhá-las ao longo do período entre um relatório e outro. A partir disso, a empresa utiliza a GRI para indicar tendências de ação, que incluem as metas, as melhorias, ou até retrocessos da companhia dentro do conceito “tripple bottom line”.

A GRI pode ser aplicada em qualquer organização e de qualquer tamanho. Apesar de 80% das companhias que utilizam a GRI no Brasil serem de capital aberto, a coordenadora Glaucia Terreo comenta que já existem pessoas fazendo o seu próprio relatório individual, assim como fazem micro-empresas e multinacionais. É exatamente a estrutura e a noção de materialidade que permitem isso. Além disso, a GRI é composta por três níveis (A, B e C), que podem ser entendidos como uma escala que auxilia a empresa a começar do nível mais simples e traçar como meta a divulgação do relatório mais completo após algum tempo. Não há obrigatoriedade de que a GRI seja auditada ou informada à organização GRI. A presença da GRI no Brasil acontece através da parceria com o Instituto Ethos, e faz parte de um piloto de regionalização. De acordo com Glaucia, o número de empresas cresceu bastante, e a organização tem trabalhado no sentido de mostrar que aderir a GRI é um investimento e que qualquer instituição pode usufruir dos seus benefícios.

¹ CERES – Coalition for Environmentally Responsible Economies

  PNUMA – Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente

 ² É necessário que 49 itens sejam respondidos entre os essenciais, e 30 dos adicionais. Ou seja, 79 dos 115.

Temas

Indicadores
 Essenciais

Indicadores
Adicionais

Economia

7

2

Ambiental

17

13

Social

21

15

Trabalhista

9

5

Direitos Humanos

6

3

Sociedade

6

2

Responsabilidade Produto

4

5

Total

70

45

Fonte: Informações: Key Associados  
 

Global Reporting Initiative (GRI)  Report List  2008

Empresas  brasileiras participantes

ABN AMRO Banco Real

Bunge

Endesa Brasil

Itaipu Binacional

**AES Eletropaulo

Celulose  Irani

Endesa Cachoeira

**Light S/A

*AES Tietê

**Cemig

Endesa CIEN

**Natura Cosméticos

Ampla

*Coelba

Endesa Fortaleza

*Petrobrás

**Aracruz

*Coelce

**Energias do Brasil

**Tractebel Energia

**Banco Bradesco

*Copagaz

**Eternit S/A

Unilever Brasil

**Banco do Brasil

**Copel

Galvão Engenharia

Usina São Manoel

**Banco Itaú Holding

**Duratex

Grupo Estado

Wal Mart


* Empresas negociadas em bolsa

**Empresas negociadas em bolsa, Novo Mercado de Governança Corporativa N1 ou N2 ou NM

Conheça todas as empresas participantes declaradas:  http://www.globalreporting.org/GRIReports/2008ReportsList/

 

Obs.: Na tabela estão 32 empresas das 72 brasileiras que listaram a GRI na organização internacional (fonte dos dados apresentados acima). Não há obrigatoriedade, nem um processo formal que possibilite que, ao divulgar o relatório de sustentabilidade utilizando o modelo GRI, a empresa declare isso à organização Global Reporting Initiative.     

15/09/2008
Jornalista Grazieli Binkowski

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