Produção de inventário estimula gestão e transparência de informações ambientais

 

Identificar e quantificar as fontes emissoras de Gases Efeito Estufa (GEE) é cada vez mais necessário para os negócios e está começando a entrar no radar dos acionistas. Desde o início do ano, para as empresas listadas na BM&FBOVESPA se tornou também critério excludente para integrar o Índice de Carbono Eficiente (ICO2). Além de representarem um dos 50 papéis mais negociados na BM&FBOVESPA e estarem listadas no IBrx50, as empresas candidatas precisam adotar práticas transparentes com relação as suas emissões de GEE. E o primeiro indicativo e passo para isso é a produção de um inventário. 

Neste primeiro ano de ICO2, aquelas companhias que ainda não têm um inventário, estiverem no IBRX50 e quiserem ingressar no novo índice, terão a ajuda de uma consultoria contratada pela BM&FBOVESPA, a inglesa Trucost, o que já aconteceu na formação da primeira carteira, com vigência até o mês de abril. De acordo com a diretora de Sustentabilidade da bolsa, Sonia Favaretto, o objetivo principal do índice, desenvolvido juntamente com o BNDES, é incentivar as empresas de capital aberto mais negociadas a aferir, divulgar e monitorar suas emissões de gases que provocam o efeito estufa, entre eles o mais conhecido, o dióxido de carbono, que dá nome ao índice.

O processo de desenvolvimento do inventário a partir da consultoria contratada pela bolsa é muito parecido com os demais que outras empresas semelhantes fazem no Brasil e no Mundo. Eles não seguem um único padrão, são adaptados às especificidades de setores e países, mas seguem no mínimo três processos reconhecidos mundialmente: o GHG Protocol Corporate Standard, a norma ISO 14064 e a metodologia científica do IPCC (Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas), que fornece os fatores para calcular as emissões de gases efeito estufa.  Eles não têm o mesmo propósito, são utilizados em momentos diferentes do processo de produção e legitimação do inventário e, portanto, também se complementam.

No caso do inventário exigido para acessar o ICO2, também não se exige nenhuma metodologia específica, no entanto são considerados os três métodos reconhecidos mundialmente citados acima. Além disso, os inventários recebidos passarão por um parecer técnico da consultoria contratada pela BM&FBOVESPA, que considerará a harmonização com os critérios usados pela parceira da Bolsa, segundo a Sonia Favaretto.

A consultoria ambiental WayCarbon, especializada na produção de inventários, também se baseia no GHG Protocol e nesse ISO específico para certificar processos ambientais. O consultor Claudio Bicudo explica de que forma cada uma dessas referências é utilizada na produção do inventário. O GHG Protocol, que tem uma extensão brasileira, liderada entre outras instituições pela Fundação Getúlio Vargas, orienta qual será o escopo do inventário, as metodologias de cálculo, a padronização, e de como será constituído o processo de pesquisa das fontes emissoras em uma empresa, uma rotina ou qualquer processo produtivo. Já o ISO 14064 é utilizado em dois momentos. Um deles é durante a elaboração do relatório para a produção do inventário. O outro é na certificação do inventário.

Segundo Bicudo, promover a certificação de um inventário pronto vai além do que contratar uma auditoria para dar um parecer sobre a autenticidade dos dados coletados, pois ele confirma que aquela padronização utilizada para a coleta dos dados para a elaboração do inventário pode ser usada novamente e que é legítimo o sistema de controle de dados utilizados pela empresa.

A presidente do Comitê de Sustentabilidade do Instituto Mais Projeto, Marilena Lino de Almeida Lavorato, compara o inventário de emissões de GEE a uma fotografia do momento atual de emissões em que o inventário é produzido. Por isso, a produção de um inventário e sua atualização constante é o primeiro passo para promover ações relacionadas à mudança climática. “Através de sua produção é possível identificar pontos positivos, negativos, de alta ou baixa emissão, e a partir daí planejar quais projetos seriam mais adequados em prol de uma postura “carbono zero”. Entre eles estão projetos de compensação de emissões, através de plantações de árvores; ou até a neutralização por meio da posterior venda desses créditos de carbono.

Portanto, o que parece consenso entre os especialistas é que a produção de um inventário de GEE é apenas o ponta-pé inicial de um processo. Para Marilena do Instituto Mais, as compensações de carbono encorajam os indivíduos e empresas a tornarem-se responsáveis pelas mudanças climáticas do mundo.  O mesmo pensa a BM&FBOVESPA ao criar um índice focado na adoção de práticas como esta. ”Não temos dúvidas que o tema mudanças climática vai influenciar a agenda de negócios, e como Bolsa, entendemos que a companhias têm de estar atentas a isto”, acredita Sonia Favaretto.

A mesma certeza é compartilhada pelo responsável pela divisão de sustentabilidade do Instituto Totum, Marco Antônio Fujihara, que vê aumentar a cada ano a procura pela produção de inventários.  A justificativa é a pressão de investidores por ações como esta. “Na prática, o inventário é só o começo”, também atesta o especialista, que avalia como legítimo a criação de mecanismos estimuladores, como a criação de índices, que também se tornam mais uma ferramenta de cobrança das empresas à disposição dos investidores. Além disso, Fujihara vê outros dois efeitos a partir da produção de inventários: a criação de um instrumento de gestão de informações e o aumento da transparência empresarial.

 

Elaborado e editado pela jornalista Grazieli Inticher Binkowski
redacao@acionista.com.br 

 

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