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Setor Combustíveis Alternativos

Desempenho

02 de outubro de 2008

A produção de biocombustíveis no Brasil no primeiro semestre deste ano superou o volume total do ano passado inteiro. A aposta no desenvolvimento de combustíveis alternativos ao petróleo é inegável, mas ainda incipiente e onerosa. Estudo da Tendências Consultoria¹ conclui que a alta no preço do petróleo e, principalmente, preocupações ambientais crescentes estimulam a produção de biocombustíveis. Até julho, foram produzidos 435 mil m³ de biodiesel (mistura a partir de óleos vegetais ou de gorduras animais que atendem a especificações da Resolução ANP n° 07/2008). Em 2007, foram 402 mil m³. Segundo dados da Tendências, o Brasil é responsável por pouco mais de um terço da produção mundial de biodiesel e etanol, e consome cerca de 270 milhões de litros, frente uma produção de 400 milhões de litros ao ano.

A questão é saber o que explica esse incremento e o projeto brasileiro de longo prazo para os biocombustíveis diante de resultados empresariais² ainda não satisfatórios. Uma das justificativas é o aumento esperado para a demanda diante da obrigatoriedade da inclusão de 3% de biodiesel na mistura de óleo diesel³. O montante produzido de biodiesel puro ou B100, que até julho foi de 3.544.892 equivalentes a barris de petróleo, para não acumular nos estoques, foi e tem sido vendido a preços que não cobrem os custos. Apesar de estar sendo assim desde o primeiro leilão em novembro de 2005, companhias como a Brasil Ecodiesel, que foi responsável por 21,1% do volume produzido no primeiro semestre e cuja capacidade instalada supriria toda a atual demanda do mercado interno por biocombustíveis, sustenta expectativas positivas para os próximos anos.

A companhia ainda é a única produtora de capital aberto cuja produção é 100% desses combustíveis. A Cosan utiliza mais de 50% para produção para a produção de etanol, e outra parte o açúcar, a empresa produz o etanol a partir de cana-de-açúcar. Açúcar Guarani elevou a parcela de etanol produzida em 44,9%, e aumentou o processamento de cana-de-açúcar em 22,5%. No entanto, sofreu com a redução de 15,8% do preço do açúcar (que tem rentabilidade maior ao etanol), e com a queda de 9,6% na cotação do etanol. Por outro lado, o custo do produto vendido caiu 2,4%. O preço médio do 11º Leilão de R$ 2.609,70 por m³ foi 48,2% superior aos leilões realizados em novembro de 2007.

¹ Pesquisa encomendada pela Brasil Ecodiesel e divulgada ao mercado no dia 2 de julho de 2008.

² Referência às empresas de capital aberto, com indicadores detalhados na tabela abaixo. Além dessas companhias, há mais de 30 usinas produtoras de biocombustíveis. Saiba quem são e a capacidade das plantas.

³ A partir de 1º de julho de 2008, o óleo diesel comercializado em todo o Brasil deve conter, obrigatoriamente, 3% de biodiesel. Esta regra foi estabelecida pela Resolução nº 2 do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), publicada em março de 2008. A adição de 3% de biodiesel ao diesel de petróleo não exige alteração nos motores e os veículos que utilizem o B3 têm garantia de fábrica assegurada pela Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea). Fonte: Agência Nacional de Petróleo, Gás e Biocombustíveis (ANP).

     
 

Empresas/ R$ MM

 

PL 1S07

PL 1S08

LL 1S07

LL 1S08

ROE  1S08 (%)

Açúcar Guarani

NM

-*

1.175,273

-*

(26,629)

-2,26

Brasil Ecodiesel

NM

333,018

212,288

(13,881)

(97,470)

-45,9

Cosan

NM

1.644,666

3.267,657

13,667

(58,143)

-1,77

Petrobras

-

107.278,909

129.707,914

10.931,071

15.708,388

12,11

São Martinho

NM

1.660,910

1.622,735

(10,570)

(26,230)

-1,61

 
       *Valores não disponíveis no período indicado.
          Fonte: Bovespa/ ROE (Retorno sobre Patrimônio) calculado pelo Acionista.com.br.  
 

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Mercado de Ações

A desvalorização de 37,68% da Açúcar Guarani e de 62,70 da Brasil Ecodiesel no ano até o mês de agosto demonstram o quanto o setor de biocombustíveis também não vai bem na bolsa. O vai-e-vem das commodities nos últimos meses piorou o cenário para Açúcar Guarani, que já tinha sofrido perdas em razão de operações financeiras do grupo acionista Eros. A Brasil Ecoediesel foi afetada pela subida dos preços da soja, sua principal matéria-prima.

De acordo com o analista da Planner Corretora, Peter Ho, o que explicou a valorização de 42,22% dos papéis da Cosan e de 28,71% da São Martinho (que tem uma produção ainda pequena de etanol, cerca de 10%), mesmo diante de resultados operacionais fracos, foi a expectativa dos investidores de que o aumento do preço do petróleo daria mais espaço ao consumo de etanol e de outros combustíveis. Mas como se viu, isso não aconteceu. E a perspectiva para os próximos meses é que o setor continue sofrendo.

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Opinião do Mercado

Peter Ping Ho - Analista Planner Corretora

O setor continua sendo um problema, mesmo com os estímulos de obrigatoriedade de 3% à mistura dos combustíveis na bomba. O setor está fadado à falência. O preço do combustível na bomba afeta muito a rentabilidade. O governo não determina um patamar de preço dos combustíveis para consumo que esteja em linha com os custos da produção (a medida visa controlar a inflação). No entanto, esse é um dos maiores obstáculos para que o setor tenha rentabilidade. Mesmo a determinação de obrigatoriedade da mistura de 3% de biodiesel nos combustíveis não é efetiva.

No primeiro semestre o setor foi afetado também pela cotação do petróleo batendo os US$ 150, 00 e pela volatilidade das commodities. As matérias-primas atingiram recordes de alta, sofreram um ajuste e voltaram novamente a subir. A Brasil Ecodiesel, que utiliza principalmente óleo de soja como matéria-prima foi prejudicada com a alta da soja. Além disso, ela também foi prejudicada pelos baixos preços pagos nos leilões organizados pela ANP e pelo Governo para a venda do etanol. Os valores não foram suficientes para fazer frente ao custo da produção. Mesmo assim, a opção de vender nos leilões permanece, porque deixar no estoque significaria um prejuízo maior ainda. Outra condição que não ajuda o desempenho da Brasil Ecodiesel é a localização das suas usinas longe dos pontos finais de venda. Portanto, a distribuição representa mais um custo. Além disso, outros produtores e fornecedores de etanol estão mais próximos dos destinos finais do que ela.

Recomendação: Não investir no setor. VENDA para a Cosan, com preço de R$ 21,00. Ela vai aumentar o capital, o que vai diluir ainda mais o seu valor, além de significar uma elevação no endividamento. A Brasil Ecodiesel e a São Martinho estão em revisão, e não temos os números para Açúcar Guarani.


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SLW Corretora - Equipe de Análise

A obrigatoriedade da mistura de 3% de biodiesel no óleo diesel estimulou o crescimento da produção e a realização pela ANP de leilões posteriores à entrada em vigor em julho. Percebe-se que há uma sobra de oferta em relação à demanda. Essa elevação também acontece na produção de álcool. A São Martinho elevou em 10% a moagem de cana-de-açucar, que deve ser de 11,6 milhões de toneladas até o final do ano. A Cosan aumentou de 43,4 milhões de toneladas para 45 milhões e a Açúcar Guarani elevou de 12,7 milhões para 14,2 milhões de toneladas de cana moída. Todas essas empresas trabalham com a idéia de que a demanda é crescente. A Açúcar Guarani elevou para 60% o percentual da cana que vai para a produção de álcool. E a Cosan e a São Martinho permanecem com 50% por 50%.

O álcool está sendo mais rentável. Um dos principais fatores é o crescimento das vendas de carros flex. No entanto, a partir de 2009, é esperado que o a cotação do açúcar volte a subir. A expectativa se deve ao fato que a Índia, maior produtora mundial, possa vir a ter problemas com a safra. O desempenho do setor é muito dependente da cotação das matérias-primas. A Brasil Ecodiesel, por isso, tem problemas com a sua estrutura, que é dependente da soja. Para que ela pudesse mudar essa situação, teria que alterar as suas unidades produtivas, o que é praticamente inviável a curto prazo. Há uma expectativa positiva quanto ao aumento da demanda após entrada em vigor da obrigatoriedade da mistura de 5% do biodiesel no diesel, só que é a partir de 2010. Os investimentos da Petrobrás, por enquanto, não representam mudanças para o setor, já que ela é uma das compradas, juntamente com a ANP (em leilões), da Brasil Ecodiesel. A meta da Petrobras é investir R$ 300 milhões em três plantas até o ano que vem. Juntas elas produziram cerca de 179 milhões de litros ao ano. Até 2012, o montante investido seria de US$ 1,2 bilhão.

Recomendação: No curto prazo não é um setor indicado. Mas no longo prazo, diante do potencial que tem os combustíveis, poderia se pensar numa carteira de três a cinco anos. Agora os desempenhos das companhias ainda são fracos e o cenário não é bom.


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Elaborado e editado pela jornalista Grazieli Inticher Binkowski

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