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Empresas da região passaram longe da crise brasileira, exibem taxas de crescimento surpreendentes e proporcionaram muitos ganhos para seus acionistas
 
O espetáculo começa no Sul

Por Mara Luquet, De São Paulo

 

O ano de 2003 foi de quebra de recordes para a Randon, fabricante gaúcha de implementos rodoviários e autopeças. A receita bruta da empresa foi de R$ 1,5 bilhão, o que significa um crescimento de 40% em relação a 2002. Com isso, as ações da companhia que já vinham de uma trajetória de alta nos últimos anos, alcançou preços ainda mais elevados e acumulou no ano passado ganho de 135,4% - uma performance acima do Índice da Bolsa de Valores de São Paulo (Ibovespa), que no mesmo período teve alta de 97, 3%.

"Em 2002 já tivemos um bom ano, mas 2003 foi ainda melhor e também enxergamos 2004 com muita confiança", diz Astor Milton Schmitt, diretor de relações com investidores da Randon e também vice-presidente da Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul.

A excelente performance da empresa ocorreu num ano em que a economia brasileira mostrou-se bastante debilitada. Em 2003, o Produto Interno Bruto (PIB), que é a soma de todas as riquezas produzidas no país, deverá mostrar uma alta de modestos 0,11%, segundo as projeções dos analistas (os números oficiais ainda não foram divulgados).

No entanto, o que aconteceu com a Randon não foi uma exceção, pelo menos não na região Sul. O desempenho das principais empresas da região negociadas na Bovespa indica que o espetáculo do crescimento prometido pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva já começou no Sul do país. Na verdade, começou antes mesmo do início do novo governo.

A razão é simples, como explica o economista Jorge Simino, um dos sócios da MS Consult, empresa especializada em consultoria setorial. "Os gestores dessas empresas há alguns anos enxergaram que não era possível ficar à mercê do vai-e-vem da economia brasileira e se prepararam para crescer mesmo em condições adversas", diz Simino.

O caminho natural era o mercado externo. Não por outra razão, essas mesmas empresas estão hoje em posição de destaque em seus setores no mercado internacional.

Assim, a partir de 1999, quando houve a mudança da política cambial e o preço do dólar passou a oscilar, essas companhias ganharam ainda mais competitividade. "Aí elas começaram a colher os frutos de anos de investimentos", acrescenta Simino.

Uma história semelhante ao de agronegócios que, depois da desvalorização cambial, passou a registrar resultados recordes. O desempenho do setor, aliás, também contribuiu bastante para o crescimento de algumas empresas da região que fornecem motores para equipamentos agrícolas. Esses dois fatores juntos fizeram com que o crescimento médio anual da receita bruta de algumas empresas atingisse patamares muito altos.

Entre 2000 a 2003, o crescimento médio anual do PIB brasileiro ficou em irrisórios 1,9%. Nesse mesmo período, a receita bruta da Randon teve crescimento médio anual de 20,1%. O bom desempenho da empresa fez com que suas ações acumulassem alta de 660% nesse mesmo intervalo de tempo. Se contabilizados os ganhos desse ano, os papéis acumulam alta de 850%.

A Gerdau cresceu nesse mesmo período a uma média anual de 38%. Um ritmo de crescimento que fez com que seus papéis atingissem valorização acumulada de 325,5% nesse prazo. O grupo Gerdau é uma das histórias mais antigas de sucesso na bolsa e hoje uma das ações mais admiradas pelos analistas.

O grupo nasceu no início do século passado com a Fábrica de Pregos Pontas de Paris, fundada em Porto Alegre por João Gerdau e seu filho Hugo. Hoje é a maior produtora de aços longos no continente americano com usinas siderúrgicas no Brasil, Argentina, Canadá, Chile, EUA e Uruguai e uma capacidade de produção de 14,4 milhões de toneladas de aço por ano.

Osvaldo Shirmer, vice-presidente executivo do grupo Gerdau e diretor de relações com investidores, diz que o grupo mantém uma média de investimentos anual de US$ 250 milhões, acima da média de depreciação da empresa que é de US$ 170 milhões. Esse volume poderá dar um salto caso os gestores da Gerdau se convençam de que o Brasil entrará numa rota de crescimento sustentado.

De imediato, ele vislumbra dois projetos que podem ganhar velocidade caso se confirme a expectativa de crescimento para o país ao longo dos próximos anos: a duplicação da capacidade da Açominas, que exigirá recursos de US$ 1 bilhão e a retomada da construção de uma nova unidade em São Paulo, um projeto de dimensões menores, mas que envolve alguns milhões de dólares. Neste caso, os investimentos já foram inclusive iniciados. "Mas reduzimos a velocidade porque ainda temos incerteza quanto à demanda do mercado interno e esta é uma planta para abastecer apenas o mercado interno", diz Shirmer.

A Gerdau tem suas razões. Em 2003, as vendas domésticas sofreram uma queda de 12% (dados até setembro). No entanto, as exportações registraram um salto de 80% no mesmo período, cobrindo com folga a retração brasileira. A decisão de ir para o exterior foi tomada no início dos anos 90. "Já tínhamos mais de 50% do mercado nacional e para crescer dependíamos basicamente do crescimento interno", explica Shirmer a razão que levou o grupo a iniciar a tão bem sucedida estratégia de conquistar o exterior.

A Marcopolo, uma das principais fabricantes de carrocerias do mundo, também já tinha mais de 50% do mercado doméstico quando decidiu ir para o exterior. Segundo o diretor de relações com investidores da Marcopolo, Carlos Zignani, a decisão veio depois dos administradores analisarem um estudo que indicava que a produção brasileira média em dez anos era de 10 mil ônibus. "Crescer num mercado estagnado é muito complicado", diz Zignani. Assim, eles também empreenderam com sucesso, a partir de 1997, a estratégia de crescer no mercado internacional. "Nossa primeira unidade no exterior foi na Argentina, em 1998", conta.

Em 2003, a receita bruta da Marcopolo sofreu uma pequena queda por conta de um negócio com a Arábia Saudita que foi suspenso depois de deflagrada a guerra entre EUA e Iraque. Outra razão foi a queda do dólar no ano passado, que acabou se refletindo numa redução de receita.

Ainda assim, o crescimento médio da receita da Marcopolo nos últimos quatro anos foi de 28,4%. Razão pela qual suas ações apresentaram no período uma valorização de 197,5%. Uma performance acima dos 40% de ganho do Ibovespa nesse mesmo intervalo.

Wagner Salaverry, analistas da corretora Geração Futuro, foi um dos primeiros a acompanhar as empresas da região (a Geração mantém um escritório de análises em Porto Alegre). Ele enxerga nos papéis dessas companhias grandes oportunidades de lucros futuros. Isso porque, apesar da alta já acumulada por essas empresas nos últimos anos, elas ainda têm um forte potencial de crescimento.

A principal razão é que estão no grupo de ações conhecido como segunda linha. Levam esse nome dado o volume de negócios com seus papéis, que ainda é baixo. Por isso, muitos investidores globais ainda não têm essas ações em carteiras. Os recursos de investidores do mercado de ações, no entanto, começam a migrar para esses papéis depois que o preço das ações de muitas empresas consideradas de primeira linha (alta liquidez) já está próximo (ou acima) do que os analistas consideram justo.

Ou seja, uma vez que as ações das empresas mais líquidas vão encarecendo, os investidores profissionais tendem a buscar oportunidades de ganhos relevantes em papéis que ainda estejam baratos. Segundo Salaverry, este é o caso dessas empresas. São ações ainda baratas, principalmente se levado em conta o potencial de crescimento delas.

O grande atrativo é que elas tendem a acompanhar o crescimento mundial e não dependem unicamente do desempenho da economia brasileira.



 


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