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RI-75
ENFOQUE
MAIS MINORITÁRIOS
LUTAM POR SEUS DIREITOS
Os acionistas minoritários estão mais
ativos na busca por seus direitos.O movimento, ainda aquém do ideal,
cresceu nos últimos anos não só entre as empresas que adotaram as
práticas de boa governança corporativa.
por Ana Borges para Acionista.com.br*
Na pesquisa realizada pelo Acionista.com.br com as companhias
de capital aberto, dentre os 34 que responderam ao questionário, 21
profissionais de relações com investidores disseram que os
minoritários estão participando mais ativamente das decisões das
empresas.

Observação: Gráfico com dados corrigidos.
O estudo também mostra que tem aumentado o número de acionistas
minoritários que buscam as empresas por informações. Dentre as
consultadas, apenas em quatro companhias não houve a percepção de
crescimento do interesse dos minoritários sobre performance da
empresa. "Cada vez maior a busca por empresas transparentes que acabam
ganhando mais valor no mercado", diz o diretor do Acionista que
coordenou a pesquisa, Ricardo Guerses.
A maior parte da busca por informações está concentrada na política de
dividendos e desempenho operacional das empresas. "Os acionistas de
menor porte geralmente buscam informações sobre a situação da empresa
e do seu mercado, se a empresa gerou lucro ou não e o porquê. Também
são solicitadas informações como a distribuição de dividendos, se irá
ocorrer ou não", afirma o diretor de Relações com Investidores da
Copesul, Bruno Piovesan.
De acordo com superintendente de Relações com Investidores, Geraldo
Soares, os acionistas minoritários estão mais cientes dos seus
direitos. "Realizamos uma pesquisa recentemente junto aos nossos
acionistas visando melhorar a comunicação com estes. A participação
foi intensa e muito contributiva para a companhia. Com base nestas
opiniões e demandas, a diretoria executiva analisa e toma decisões que
visam à criação contínua de valor para os acionistas", justifica.
Jean Philippe Leroy, da área de Relações com Investidores do banco
Bradesco explica que a procura por conhecimento em trajetória
ascendente. "Observamos um maior volume de telefonemas de pessoas
físicas indagando a estratégia e as medidas pautadas pela empresa. Com
isto, as áreas de Relação com Investidores estão deixando de focar o
investidor institucional apenas, abrindo o escopo de atuação com estas
pessoas", salienta.
O aumento da busca de informações também está relacionado ao próprio
crescimento da base de Acionistas. O diretor de Relação com
Investidores da Eternit, Élio Antonio Martins, afirma que houve
incremento de 40% nos investimentos de acionistas minoritários no ano
passado. "De 1.000 ações adquiridas por minoritários, o número saltou
para 1.400 em 2003. Acredito que a distribuição e regulamentação dos
dividendos têm chamado a atenção dos acionistas", expõe.
O advogado que atua junto ao Acionista, Carlos Zanini explica que a
participação mais ativa do minoritário depende da composição acionária
e da operação que a empresa pretende realizar. "Em geral as
assembléias têm pouca participação. No Brasil o bloco de controle é
muito fechado e o voto do minoritário se torna inócuo. Há ainda a
questão da cultura", justifica. Enquanto na Europa acontecem
assembléias que contam com a participação de mais de 10 mil
acionistas, no Brasil os eventos são de porte bem menor. "O movimento
progrediu muito. No entanto, a freqüência é pouca, as vezes há os
representantes de fundos", ressalta.
Para Guerses, o problema é que a maior parte da liquidez do mercado
ainda é formada por ações preferenciais, sem direito a voto, o que
reduz o incentivo para a participação do minoritário. "É preciso
intensificar o volume de negócios com as ordinárias. Empresas como a
Petrobrás e a Vale do Rio Doce poderiam ter a liquidez mais
concentrada em ordinárias", acredita. Das 54 registradas no Ibovespa
somente 5 possuem somente ações ordinárias no mercado.
A perspectiva de que o mercado de capitais fosse pulverizado foi
frustrada pelo modelo de privatização. Grandes companhias acabaram
sendo entregues aos conglomerados estrangeiros, caso de muitas
telefônicas e empresas de energia. "Muitas vezes o que está se
discutindo na Assembléia já foi decidido lá fora", lembra Zanini.
Apesar disso, o minoritário não pode se render. "Haveria mais respeito
se os acionistas comparecessem. O problema é que há certo comodismo,
já que o minoritário não sente que faz diferença", diz.
O vice-presidente da Associação Nacional dos Investidores do Mercado
de Capitais (Animec), Gregório Rodrigues confirma os resultados da
pesquisa do Acionista, mas ressalva que a evolução da relação entre
acionistas e companhias está concentrada em grandes empresas. "Das
mais de 370 empresas listadas em bolsa, 150 podem ser consideradas
realmente abertas, as demais ainda permanecem com estrutura familiar
que dão pouca atenção aos minoritários e apenas cumprem a lei", diz.
Rodrigues explica que o minoritário ainda não participa das
assembléias e tem uma atitude passiva. Aumentou, entretanto, o
movimento de assets. É uma questão cultural. As decisões expostas nas
assembléias geralmente já foram tomadas, mas compete ao minoritário
participar e deixar registrado em ata se discorda com a postura e o
motivo. O pior é ficar indiferente.
Para Zanini, as mudanças na legislação, marcadas pela nova Lei das
Sociedades Anônimas ampliou o espaço para que as reclamações dos
minoritários sejam ouvidas. "A ferramenta jurídica melhorou. É o
início da percepção que pode melhora. O que falta é mudança de
percepção", resume. Após a reedição da nova lei, uma reclamação
adicional se incorporou às outras. Agora, os minoritários podem pedir
a suspensão de assembléia. O colegiado da Comissão de valores
Mobiliários (CVM) tem a obrigação de analisar o pedido e avaliá-lo.
Até o momento, a instituição recebeu 15 pedidos de suspensão e dois
deles foram aceitos. Foram oito em 2002, seis em 2003 e até a presente
data mais um, ainda em análise.
A nova Lei das SAs também prevê a introdução da participação dos
acionistas no conselho a partir de 2006. Algumas companhias já estão
antecipando. Há outras que já estão estendendo o direito de tag along,
(aquisição de uma proporção do valor pago ao controlador, quando da
mudança de controle acionário), às ações preferenciais, como Itaú,
Gerdau e Bradesco. De acordo com a lei, somente os detentores dos
papéis ordinários devem receber 80% da quantia paga às ações do
controlador. "Na verdade é pouco, pois ainda há a distinção entre
majoritário, minoritário em operações como fusão, cisão e
incorporação", reclama Rodrigues.
A CVM registrou mais de 300 reclamações este ano. A lista de
inadimplentes com envio de documentos chega a quase 70 empresas. Para
encaminhar reclamações ou perguntas à CVM pode-se usar o e-mail soi@cvm.gov.br.
A Animec possui hoje 15 questionamentos de casos junto à CVM. Os
problemas mais freqüentes dizem respeito à escolha do comitê fiscal,
cálculo de dividendo, critérios de distribuição de capital e abuso de
poder do controlador. A Animec foi fundada em 1999 e, nos dois
primeiros anos a quantidade de casos que a Associação se defrontou foi
maior devido ao grande movimento de fusões e aquisições principalmente
no setor de telefonia e elétrico.
Busca por informações aumenta a base de
investidores
As grandes companhias vêem de forma positiva a mudança da percepção
dos minoritários, mas há exceções. Dentre as 34 ouvidas pelo
Acionista, oito são indiferentes à mudança de comportamento. Os que
vêem como algo bom justificam que a procura de informações reflete na
melhor percepção relação à empresa e aumenta a base de investidores.
Como conseqüência da pulverização das ações, está a redução da
volatilidade. "A busca vem ao encontro de nossa política de
pulverização das ações, gerando com isso maior liquidez dos papéis da
empresa", ressalta o diretor de relações com investidores da
Marcopolo, Carlos Zignani. A CCR, que participa do Novo Mercado da
Bovespa, entende que quanto mais próximo for a compreensão dos
negócios da CCR, pelos acionistas minoritários, estes estarão em
condições de melhor avaliar o preço das ações. Além disso, quanto
maior o número de acionistas, maior é a probabilidade de termos mais
instituições cobrindo a CCR, portanto maior número de transações
diárias com nossas ações, em outras palavras maior liquidez.
COMO AS EMPRESAS VÊEM OS MINORITÁRIOS
"Acredito que a distribuição e regulamentação dos dividendos têm
chamado a atenção dos acionistas. Não fizemos nenhuma opção por níveis
de Governança Corporativa. Existe um conselho formado pelos acionistas
detentores da maior quantidade de ações, mas os minoritários não
participam do conselho. A pergunta mais requisitada é se nós iremos
continuar com nossa política de dividendos. Geralmente são pais que
querem financiar os estudos dos filhos com o dinheiro recebido através
de investimentos. A resposta é sempre a mesma: tudo o que não for
necessário para a manutenção e investimentos da empresa é distribuído
aos acionistas", Élio Antonio Martins, presidente da Eternit.
"A empresa vê essa busca de informações como positiva, porque
demonstra interesse pela companhia, pulverizando a distribuição das
ações, o que as torna menos volátil e contribui para aproximação do
valor de mercado da ação ao seu preço justo", Natasha Namie
Nakagawa, representante da VCP.
"A Copesul considera positiva porque a busca de informações está
gerando o aumento do número de acionistas minoritários, e gerando uma
maior movimentação nas ações da empresa. Em quatro meses, a Copesul
teve um crescimento de, aproximadamente, 7% no número de acionistas
minoritários", Bruno Piovesan, diretor de Relações com Investidores
da Copesul.
"Sob a nossa perspectiva, os acionistas minoritários apenas
participariam das decisões da empresa caso tivessem apontado um
representante para o conselho de administração, o que requer a
convocação do voto múltiplo, que permite a eleição deste representante
nas AGOs da Cia. Até o presente momento ocorreram duas assembléias e
em nenhuma oportunidade houve qualquer manifestação dos minoritários,
portanto a conclusão a que chego, é a de no caso da CCR, o minoritário
não tem participado das decisões", Arthur Piotto, relações com
investidores da CCR .
"O maior crescimento por informações gera a possibilidade de um
aumento do número de operações da empresa, além de um conseqüente
aumento da cultura do mercado de capitais no Brasil", Geraldo
Soares, Superintendente de Relações com Investidores Itaú.
"O processo de queda de taxas de juros também faz com que mais pessoas
passem a investir em Renda Variável, e por não conhecerem tão bem as
empresas, demandam informações gerais sobre o rumo esperado para os
negócios", Jean Philippe Leroy da área de Relações com Investidores
do Bradesco.
"O número de consultas tem aumentado gradativamente, se percebe
principalmente no nosso site. Mas temos pouco contato direto com o
acionista minoritário, pois muitos deles o fazem através da corretora
e não diretamente conosco", Darci Gambin, chefe do setor de
acionistas da Gerdau.
"O interesse tem crescido muito e o número de acionistas minoritários
também. De três anos para cá, (desde o início das práticas da
Governança Corporativa), a quantidade de pequenos investidores passou
de 650 para 3000 pessoas. Um aumento de 350%", Fernando Antonio
Mearim Luiz, analista de Relações com Investidores da SUZANO,
"Existe um aumento de interesse impulsionado pela facilidade das novas
tecnologias, como a Internet, onde os minoritários buscam informações.
A mídia também ajuda na divulgação de informações. Hoje em dia é mais
fácil buscar dados do que antes", diretor do departamento de
Relações com Investidores da Transpaulista, Manuel Carlos Coronado.
"Todos os direitos dos acionistas são mantidos desde que a lei existe,
mas não temos sentido diferença dos acionistas minoritários em relação
às decisões tomadas pela empresa. Não há representantes em nossos
Conselhos, pois ninguém votou para que houvesse essa representação dos
minoritários na última eleição que tivemos. Atualmente temos 46,05% de
minoritários em nossas ações ordinárias e 99,38% nas ações
preferenciais. O total de participação é de 60,04$, número bem
expressivo", Maria Spezia, analista de Relações com investidores da
Hering.
"A participação dos acionistas minoritários têm aumentado bastante. Há
um representante dos minoritários no Conselho Administrativo que
participam ativamente das decisões da empresa. Em nossas ADRS há uma
grande participação dos minoritários que estão fora do Brasil e estes
se importam muito com a forma com que o minoritário é tratado aqui",
Edinelson Oliveira, analista de RI da Brasil Telecom.
"Melhorou a participação do minoritário, principalmente de uns dois
anos para cá. Atualmente eles contam com um representante no Conselho
Fiscal e outro no Conselho Administrativo", Gilberto Farias,
economista chefe da Celesc.
"De três anos para cá aumentou muito o interesse do minoritário, mas
desde o ano passado ficou ainda mais latente. Há grupos que acompanham
o dia-a-dia da empresa, buscam informações, ligam, etc", Henrique
Gonçalves Bastos, responsável pelo setor de RI da Sadia.
"Os minoritários possuem um representante no Conselho Fiscal e um no
Conselho Administrativo. 77% das ações preferenciais estão
concentradas nas mãos dos acionistas minoritários, enquanto que 23%
pertencem aos controladores. Em relação às ordinárias, 80% está com os
controladores. O volume de negociação das ordinárias é praticamente
nulo", Luis Marciano, gerente de RI da Klabin.
"O interesse tem aumentado muito. Os acionistas têm buscado
informações principalmente através de e-mail, telefone, indo a
reuniões da Animec e fazendo visitas à empresa. Para se ter uma idéia,
quase 100% das ações preferências pertencem aos minoritários. Do
total, (ordinárias e preferenciais), os minoritários representam 60%",
Sérgio Ricardo Putini, controler de RI da Confab.
"Dos 18 mil acionistas que temos, 15 mil são minoritários. Eles
possuem dois representantes no Conselho Fiscal bastante ativos, que
sempre comparecem nas reuniões, fazem pedidos, estão em contato com
todos os eventos do mercado financeiro e também vão às reuniões da
Apimec", Leir Sá Stortti, gerente de RI da VARIG,
"Percebemos grande solicitação por informações já faz algum tempo. Há
aumento na freqüência da participação do minoritário nas reuniões que
fazemos e da visita dos mesmos", Luis Fernando Rolla,
superintendente de RI da CEMIG.
OBSERVAÇÃO: Na
pesquisa, minoritário é considerado aquele que não possui o controle
da empresa. Tanto o que possui ações ordinárias, com direito a voto,
mas em quantidade insuficiente, quanto o que detém ações
preferenciais, qualquer que seja a quantidade, porque não têm direito
ao voto.
(*) ANA BORGES é editora do Acionista.com.br. (E-mail: anaborges@terra.com.br)
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