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Por Marcelo de Ávila * 29 de junho de 2204 Há dez anos foi arquitetado mais um plano de mudança de moeda prometendo o mesmo que todos os outros planos mirabolantes já haviam prometido: a estabilização da moeda. Tal plano foi o mais bem sucedido e mais longevo desde o cruzeiro (de 1970 a 1986). Iniciado com a URV, ou Unidade Real de Valor (de março a 30 de junho), como estratégia de transição indexada entre as duas moedas, o plano real marcou a história do país com o fim do processo hiper-inflacionário. O discurso, o qual sou a favor, se mostra na impossibilidade de direcionar um país no processo de crescimento sustentado sem estabilização da moeda. A verdade é que apesar do Plano Real ter implementado a estabilidade da moeda, não se conseguiu, nem dez anos depois, induzir o país em um caminho de crescimento razoável. Inclusive, o Plano Real mostrou uma grande diferença entre os dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso. Diferença pela qual todo ganho de renda real adquirido de 1994 a 1998 foi deteriorado nos anos seguintes. Portanto, vale a pena comparar, sobre tudo na diferença entre os dois mandatos de FHC, alguns pontos cruciais demonstrados nos indicadores econômicos resultantes 10 anos depois da implementação do Real. A taxa de crescimento média do PIB nesses dez anos não alcançou nem 2,5% ao ano (2,43% para ser preciso, até 2003), patamar que não se dá pra considerar um espetáculo do crescimento. Pior, no 1º mandato de FHC houve crescimento do PIB cada vez menor, chegando a módicos 0,1% em 1998. Apenas em 2000 que o país cresceu a uma taxa razoável (mas nada de espetacular) de 4,4%. A manutenção da âncora cambial por tempo prolongado, somada às crises externas (como Ásia e Rússia) induziram os juros nas alturas. Na "qualidade de atração de capitais externos", os juros altos neutralizaram a capacidade de recuperação econômica brasileira. Assim pode-se dizer que no primeiro mandato de FHC os juros altos serviam para atrair capital externo. No segundo mandato, os altos juros faziam o papel de inibidor do processo inflacionário. Em suma, de um modo ou de outro os juros nunca foram baixos. Entretanto, o que houve de pior em relação à política macroeconômica se deu na visão do BC que seria possível fazer uma queda de braço com o mercado. O BC entrava no mercado diariamente vendendo dólares para segurar o câmbio. Essa estratégia míope queimou nada menos que mais de US$ 30 bilhões das reservas internacionais nos últimos dois meses de 1998. "Depois de torrar toda essa grana" o câmbio foi liberado e o Real sofreu sua primeira maxidesvalorização. Dá pra acreditar? Assim, com juros estratosféricos e desvalorização cambial, houve deterioração não só da renda do consumidor, mas também dos cofres do setor público. A Dívida Pública em proporção do PIB praticamente dobrou de 1994 a 2003, registrando aumento de 30,01% para 58,15% (ambos dados de dezembro de cada ano). Nem com superávit primário houve redução da dívida pública. Tal superávit apenas fez com que a Dívida Pública crescesse mais devagar (e nem tanto). Entretanto deve-se dizer que houve uma redução da necessidade de financiamento externo fundamental. Em 1998, o saldo em Conta Corrente registrava déficit de US$ 33,42 bilhões (dados acumulados em 12 meses). Em dezembro de 2003, houve o primeiro superávit em Conta Corrente em 11 anos, de US$ 4 bilhões. Tal melhora se deveu quase que unicamente pelos superávits na Balança Comercial crescentes, ultrapassando US$ 24 bilhões em 2003. Voltando à questão do crescimento econômico, a mediocridade na recuperação da economia mais que dobrou a taxa de desemprego levando-a a níveis nunca visto antes neste país. É fato que houve mudança de metodologia de cálculo do IBGE. Mas houve deterioração muito forte do quadro do mercado de trabalho, aumentando assim a informalidade no País. Assim, dez anos depois o plano que deu certo não conseguiu colocar a economia brasileira nos trilhos do crescimento sustentado. Não se deve, entretanto, negligenciar as melhorar adquiridas até aqui. É preciso que haja continuidade na indução de políticas não só macroeconômicas, mas microeconômicas (como seriedade nas regras de investimentos ou marco regulatório), para que ocorra investimento no setor produtivo. Motivo principal pelo qual o Brasil não cresce economicamente. Se não conseguirmos atrair capital externo para investimento haverá piora no quadro de crescimento e continuaremos crescendo ao ritmo de "vôos da galinha". Enfim como dizem, o plano é bom, mas o erro é dos governos... Como conseguiríamos separar os dois então? * Marcelo de Ávila é economista chefe da Global Station Marcelo de Ávila
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