Relatório de Inflação
Guilherme da Nóbrega
30 de junho de 2004
O mais grave surto de inflação do pós-Real foi aquele que envelopou a campanha
eleitoral de 2002 e os primeiros meses do governo Lula. Em maio de 2003, o
IPCA acumulava, em doze meses, 17,2%. Depois, recuou firme e continuamente até
alcançar, em maio deste ano, 5,2%.
Não deve cair mais, por enquanto. No Relatório Trimestral de Inflação,
divulgado hoje, o BC passa a considerar como mais provável uma ligeira
elevação ao longo do ano, até atingir 6,4% no acumulado de 2004. A razão é a
mesma da ata do Copom: a desvalorização do Real e a alta nos preços do
petróleo.
O relatório acompanha o mercado na percepção de que, de fato, o cenário de
curto prazo piorou. Diverge, entretanto, quanto à visão média a respeito de
2005. Para o BC,
“.... essa elevação [das expectativas de inflação] estendeu-se também a
horizontes mais longos, com intensidade que excede a persistência da reação da
inflação a choques exógenos diante do compromisso inequívoco da autoridade
monetária de combater o que venham a ser os efeitos secundários de tais
choques”.
Não se duvida do compromisso inequívoco. Difícil mesmo é saber até onde vão os
“efeitos primários” dos choques, um tema sobre o qual o mercado está
evidentemente mais pessimista – o que não quer dizer, necessariamente, mais
próximo da verdade. O BC está atento a essa discrepância.
Seja como for, o Relatório de Inflação detectou a elevação da inflação
corrente, reconheceu que haverá pressão ao longo de 2004 e, se não validou, ao
menos reconheceu a piora das expectativas para 2005.
Ao mesmo tempo, enfatizou a boa evolução do nível de atividade, salientando “a
relevância da recuperação da demanda interna” que gradualmente vai
complementando o impulso que vem das exportações.
São fatores que concorrem em sugerir que os juros não voltarão a cair, pelo
menos nos próximos meses. Ainda que seja possível uma pequena redução da Selic
no último trimestre do ano (para patamar não inferior a 15%), esse é um
cenário cada vez mais difícil de sustentar.
Nosso cenário revisto contempla Selic estável em 16% ao longo de todo o
segundo semestre do ano.
Metas de inflação
Não são os detalhes do regime de metas, nem o processo decisório do Copom, que
atrapalham a política monetária. O maior obstáculo técnico é simples: a
volatilidade cambial e seu impacto sempre exagerado sobre a trajetória dos
preços, que precariza as projeções de inflação e magnifica os dilemas
enfrentados pelo BC no Brasil.
Nenhum aperfeiçoamento do regime de metas alteraria substancialmente esse
quadro. O BC tem procurado passar ao largo desse debate, preferindo apostar
que o tempo consolidará o regime, com ou sem mudanças cujo impacto final pode
ser pequeno.
É preciso reconhecer que a postura do BC tem seu mérito. Se prevalecer essa
visão, a reunião do CMN de hoje não fará manchetes amanhã.
*Guilherme da Nóbrega
Economista/Banco Fibra
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