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Francisco Petros* 10.08.04 O cenário externo persiste extremamente difícil de ser previsto. Conseqüentemente, prevalece uma significativa instabilidade das expectativas e elevada volatilidade dos diversos segmentos do mercado financeiro e de capital. Na última sexta-feira, o Board of Labor Statistics do Departamento de Comércio dos EUA divulgou os dados sobre a geração de empregos no mês de julho. As expectativas dos analistas, economistas e investidores gravitavam ao redor de 220-250 mil vagas que seriam criadas no mês. Os dados efetivamente divulgados mostraram que apenas 38 mil vagas foram criadas e a taxa de desemprego ficou pouco abaixo do mês anterior (caiu de 5,6% para 5,5%). O ritmo de crescimento das vagas de trabalho de julho é o mais fraco desde dezembro do ano passado. Apenas para (1) atender ao crescimento da população e (2) atingir um nível de desemprego de 4% que é considerado pelos estudiosos do assunto e pelo próprio Federal Reserve (Banco Central dos EUA) como sendo o ideal para atender aos objetivos de máxima capacidade utilizada sem pressões inflacionárias, o crescimento mensal das vagas de trabalho deveria ser de 250-280 mil. Observados os indicadores do mês de julho, pode-se imaginar a frustração dos analistas e dos investidores. Alan Greenspan, presidente do Federal Reserve, em seu depoimento perante o Congresso dos EUA em 20 de julho passado, disse que estava otimista em relação aos indicadores de emprego de julho. Neste depoimento ele foi explicitamente questionado sobre a situação do mercado de trabalho e tentava explicar os fracos números de emprego dos meses de maio e junho. Aparentemente, também o Federal Reserve foi surpreendido pelos números fracos de julho. E o que importa este indicador para o Brasil? É preciso entender que os indicadores de emprego são, juntamente com os de capacidade ociosa, produtividade e inflação, os mais importantes para a definição da política de juros básicos pelo Federal Reserve. Os juros básicos dos EUA estão para o mundo como a taxa Selic está para o Brasil. Quaisquer alterações nas expectativas em relação à taxa básica de juros dos EUA provocam enormes movimentos nas taxas de câmbio, juros e no mercado de ativos ao redor do mundo. Foi exatamente isso que ocorreu na última sexta-feira, depois da divulgação dos dados de emprego nos EUA: o dólar se desvalorizou perante quase todas as moedas internacionais (inclusive em relação ao real), as taxas de juros dos títulos do Tesouro norte-americano caíram fortemente, assim como as ações se desvalorizaram. Apesar dos indicadores de emprego de julho terem sido muito fracos é provável que o Fed aumente hoje a taxa de juros básica de 1,25% para 1,50% ao ano. Entretanto, está muito difícil prever quais serão os próximos movimentos do Fed nas próximas reuniões de seu comitê responsável pela gestão da política monetária. Com efeito: o mercado financeiro mundial deve continuar muito volátil a cada divulgação de indicadores econômicos dos EUA. No curto prazo, o Brasil pode ser beneficiado pelo menor custo de capital vigente no mercado internacional. Para um país que tem amortizações de empréstimos externos de US$ 35-40 bilhões por ano, o nível mais baixo das taxas de juros internacionais é fator vital para definir o curso do risco-país e, por conseguinte, as expectativas de crescimento, câmbio e juros domésticos. Quem não deve ter ficado nada feliz ao ler estes números foi o Presidente George W. Bush. Empregos e impostos são os dois "carros-chefe" das discussões entre os eleitores norte-americanos. John F. Kerry, o candidato democrata, tem enfatizado que o crescimento atual não é sustentável e a recuperação do mercado de trabalho incipiente. Ele culpa a política fiscal de Bush como elemento fundamental para este fracasso de vez que gerou um enorme déficit fiscal e reduziu os impostos dos mais ricos que são os que gastam menos em termos relativos. Até novembro muito pode acontecer, mas se a economia mostrar sinais fracos, as chances de Kerry nas eleições presidenciais de novembro devem aumentar. Obviamente, em tempos de riscos geopolíticos elevados e campanhas eleitorais marcadas por um marketing e propaganda nos quais a imagem é mais importante que as idéias, tudo é possível de ocorrer. Contudo, a questão do emprego parece ser paradigmática no atual contexto. Por fim, uma pequena nota sobre a capacidade de se elaborar previsões. Há um notável arsenal de instrumentos e programas de análise e previsões econômicas no mercado financeiro ao redor do globo. Entretanto, o que verificamos é que os erros destas previsões são grosseiros quando confrontadas com a realidade factual. Tenta-se adivinhar o futuro quando se deveria mostrar para os agentes econômicos e a sociedade em geral as variáveis de risco presentes no cenário. Isto seria mais útil às decisões de investimento e consumo. Os indicadores de emprego dos EUA são apenas um pequeno exemplo da incapacidade de se fazer previsões, apesar da sofisticação dos estudos e ferramentas disponíveis para tal tarefa. fpetros@nam.com.br *Este artigo expressa a opinião do seu autor. O Acionista.com.br não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações dadas no artigo ou por eventuais prejuízos de qualquer natureza em conseqüência do uso destas informações. |