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Comentários sobre o Boletim Focus: PIB, inflação, juros e dívida pública

30 ABR, 2018 / POR: CARLOS DIX SILVEIRA*

                                   

PIB

A última edição da pesquisa Focus, divulgada segunda-feira (23), reduziu a expectativa de crescimento do PIB de 2018 de 2,76% para 2,75% e manteve a de 2019 em 3,00%.

As previsões do B deste ano divulgadas, semanalmente, pela pesquisa Focus vem apresentando uma trajetória de leve declínio se considerarmos que na primeira semana de janeiro estava em 2,79%, atingindo 2,89% no final de fevereiro e fechando em 2,75% na segunda-feira (23). As análises de especialistas e autoridades econômicas são por vezes contraditórias. As eleições deste ano e a imagem dos políticos que se apresentam como candidatos, é a fonte principal do retrocesso das expectativas.

O ICE – Índice de Confiança Empresarial, calculado pela FGV, regrediu 1,4 ponto em abril, comparado com março, informou a fundação sexta-feira (27). Conforme nota oficial da FGV, a pesquisa que consulta 4.842 empresas dos setores da Indústria de Transformação, Serviços, Comércio e Construção, “a queda da confiança empresarial em abril parece refletir certo desapontamento do setor produtivo com o ritmo lento de atividade neste início de ano e o aumento de incertezas com a entrada do período eleitoral no radar das expectativas. A boa notícia é que os indicadores que medem a percepção sobre a situação atual continuaram subindo no mês, sinalizando que a economia continua na fase de recuperação gradual”.

A crise econômica não se atenuou. Continua travando a retomada do crescimento, agora agravada pelo aumento do desemprego, que encerrou o primeiro trimestre com a taxa de 13,1%, a mais alta desde maio de 2017 e pelo aumento da dispensa de trabalhadores diante de uma economia em queda superior à projetada pelo mercado. A renda recuou assim como o número de trabalhadores formais que atingiu seu menor nível em seis anos. A taxa de desemprego na pesquisa Pnad de 11,8%, no quarto trimestre de 2017, aumentou para 12,6% no trimestre dezembro/fevereiro, revelou o IBGE, sexta-feira (27). O desemprego do primeiro trimestre é o maior desde o trimestre encerrado em maio de 2017, de 13,3%, superando previsões de várias instituições de pesquisa e expectativas do mercado.

Justifica-se a queda das estimativas do PIB diante de cenário tão preocupante e de um mercado inseguro e sem propensão de investir.


Inflação

Alterada a expectativa de inflação de 2018 de 3,48% para 3,49% e a de 2019 de 4,07% para 4,0%. Depois de várias semanas em queda, a previsão de inflação deste ano teve pequeno aumento. O consumo das famílias continua paralisado e o nível de desemprego aumentando, favorece a contenção dos preços. O IGP-M de abril, índice calculado pela FGV, teve alta de 0,57%, ante 0,64% em março. O IGP-M que é utilizado para a atualização do valor de contratos e especialmente de aluguel é um indicador importante do comportamento dos preços. A equipe econômica do Banco Central está focada na contenção da inflação, pois segundo seu presidente, Ilan Goldfajn, controlando a inflação, os juros caem e, com isso, o crescimento econômico acontece. “No mundo todo, o objetivo primeiro dos bancos centrais é o controle da inflação. No Brasil, o primeiro objetivo do BC é a inflação e depois a estabilidade econômica”, disse o presidente Ilan em palestra proferida no Ibmec-SP. “Crescimento envolve a ação de todos os ministérios”, disse acrescentando que o equilíbrio das contas públicas também é peça importante para se gerar crescimento.


Juros

Mantém a estimativa da taxa Selic de 2018 em 6,25% e a de 2019 em 8,00%. A expectativa de fechar o ano com a taxa Selic projetada pela pesquisa Focus não é impossível. O esforço do Banco Central para controlar a inflação tem se mostrado frutífero. A queda da inflação proporciona queda dos juros e estimula o crescimento econômico. A queda dos juros brasileiros foi expressiva, caindo de 12,5% para 6,5% nos últimos doze meses, mas não repercutiu no crescimento econômico em razão da grave crise econômica que o país enfrentou como herança dos governos populistas. A retração do consumo provocou a redução da produção, crescimento importante do desemprego e queda da renda. O investimento caiu e a economia recém agora apresenta leve sinal de recuperação em alguns setores. O crescimento não depende só da queda dos juros ou da ação do Banco Central. É um processo que envolve todo o governo e a sociedade. O governo não gera renda. O governo gera condições favoráveis para o crescimento econômico, criando um cenário que possibilita a iniciativa privada, esta sim, geradora de renda, investir, expandir o emprego e criar riqueza. Com inflação em queda e economia em alta os juros tendem a se manter baixos. É este cenário que o mercado espera que aconteça, apesar dos obstáculos criados por um governo sem carisma, inconfiável e um conturbado período eleitoral.


Dívida Pública

A pesquisa manteve a expectativa da dívida líquida de 2018 em 55,00% do PIB e de 2019 em 57,00% do PIB. A dívida líquida do setor público corresponde ao saldo líquido do endividamento do setor público não financeiro e do Banco Central com o sistema financeiro (público e privado), o setor privado não financeiro e o resto do mundo. O saldo líquido é o balanceamento entre as dívidas e os créditos do setor público não financeiro e do Banco Central.

Boletim Focus (original)

*Economista