Fintech

A revolução das Fintechs na gestão de investimentos

27 JUL, 2017 / POR: ALEXANDRE PRADO

                                   

As Fintechs chegaram e chegaram forte!

"Tenho certeza que nós, bancos, temos que correr", disse o presidente do Itaú Unibanco, Roberto Setubal, durante congresso da Febraban, há pouco mais de um ano.

Nunca se falou tanto nelas. As razões são simples: trata-se de um mercado que movimentou pouco mais de US$ 19 bilhões em investimentos no ano passado só nos Estados Unidos, segundo estimativas da consultoria KPMG, e que tem potencial para movimentar mais de US$ 100 bilhões nos próximos quatros anos. E o potencial para crescimento é enorme! E olha que, mesmo o Brasil tendo entrado com dois anos de atraso nesta onda, no final de 2016 já eram computadas 220 ativas fintechs.

No Brasil, algumas vêm se destacando: Nubank, Moip, Viva Real, Magnetis, Guia Bolso, Neon, Conta Azul, Vérios, Minuto Seguros, Geru, entre outras.

Mas, o que são fintechs? O termo surgiu da combinação das palavras em inglês FINancial (finanças) e TECHnology (tecnologia). E, por si só, resume bem a ideia: é toda empresa — normalmente começa como uma startup – que oferece serviços financeiros que se diferenciam pelas facilidades proporcionadas pela tecnologia e, com efeito, pela internet. Mas, a maioria dos bancos já oferece serviços pela internet, certo? Errado!

Em uma fintech, os recursos tecnológicos são utilizados essencialmente para trazer conveniência por meio da inovação e da agilidade: as empresas criam metodologias, processos e ferramentas que facilitam o acesso a serviços financeiros (conta corrente, cartão de crédito e débito, empréstimos pessoais e corporativos, pagamentos, investimentos, seguros, funding, negociação de dívidas, etc). O resultado desses esforços aparece para o usuário na forma de praticidade, rapidez e transparência – novos produtos e serviços são geralmente mais fáceis de se usar, mais simples, intuitivos e estão disponíveis 24 horas por dia durante 7 dias da semana, na maior parte das vezes através de aplicativos mobile –, burocracia reduzida, custos baixos — por vezes, sem custo! –, maior controle sobre operações financeiras e por aí vai.

Outros fatores influenciaram fortemente para o surgimento e permanência das fintechs: a estrutura enxuta e sem a pressão de reguladores e do compliance das grandes empresas, permitem com quem sejam mais ágeis. Algumas escapam, inclusive, dos impostos locais por oferecerem serviços do exterior ou atuarem em nichos fora do escopo da legislação tributária local. A popularização dos smartphones e a digitalização da indústria e dos serviços também foram fundamentais, visto que elas são a vertente financeira da revolução digital que obrigou empresas de diversas áreas a se reinventarem: gravadoras, imprensa, telecomunicações, comércio, entre outras.

E as fintechs ainda contam com aliados poderosos: os próprios consumidores. Na maioria jovens, antenados e acostumados ao uso de recursos tecnológicos, estão conectados ao mundo e fazem da internet o ambiente social mais importante. São clientes conectados às empresas e dispostos a recomendar e divulgar quando estão satisfeitos. Claro que o oposto também vale! No entanto, pesquisa realizada recentemente com 16 mil pessoas, em 32 países, mostrou que 54,9% dos entrevistados recomendariam um serviço prestado por uma fintech, enquanto apenas 38,4% indicariam o de um banco.

Mas, para as fintechs, nem tudo são flores; há desafios: são estruturas menores, mais enxutas e sem tantos recursos de pessoal. Aliado a isto, esbarram em limitações de difícil superação para empresas de pequeno porte ou que estejam começando. Uma delas é a dificuldade de captar dinheiro, o insumo de maior relevância na competição dentro do sistema financeiro. Outro aspecto estrutural importante é que a maioria não conta com áreas importantes de suporte para implementação dos serviços e o cumprimento dos contratos com os clientes, como assessoria jurídica, ouvidoria e atendimento ao consumidor. Pouquíssimas estão também preparadas para lidar com questões de segurança da informação que, em breve, serão exigidas também pelos reguladores.

Inclusive, o avanço das fintechs também está no radar do Banco Central e da Comissão de Valores Mobiliários (CVM): em cada instituição foi criado um grupo para estudar as atividades dessas empresas. Por enquanto, a intenção não é criar regras, mas sim de estar ciente sobre o que e como fazem a fim de, se necessário, regular a relação.

As vantagens para o consumidor foram mostradas acima, mas e os riscos?

O principal deles diz respeito à segurança. Muitas fintechs conseguem ser mais atraentes que os bancos ao, por exemplo, eliminarem processos burocráticos. Isso pode ser até atraente, mas eventualmente pode expor o cliente ou o próprio negócio a determinados problemas — quando um procedimento que checa a legitimidade de uma informação é descartado, por exemplo.

Por isso, é importante observar quais companhias são parceiras da fintech, se a empresa cumpre normas de mercado, se ela tem queixas em órgãos de defesa do consumidor. Também é essencial saber se a empresa tem política clara de proteção à privacidade, se investe em segurança da informação, se adota medidas de combate à fraudes, se tem canais eficientes de comunicação com clientes, enfim.

É importante ainda prestar atenção na proposta do negócio. Se a fintech oferece serviços com preços muito baixos ou com isenção completa de tarifas, precisa deixar claro como obtém — ou, ao menos, planeja obter — receita. Do contrário, a empresa poderá ter problemas operacionais sérios ou, em casos extremos, sinalizar envolvimento com atividades ilegais.

E, para concluir, vem à tona a questão: as fintechs são moda passageira ou vieram para ficar?

O modelo disruptivo apresentado pelas fintechs, cima de tudo, surge como resposta a uma necessidade. O número de pessoas que utilizam smartphones e internet móvel no mundo todo não para de crescer, consequentemente, a demanda por serviços digitais aumenta: até mesmo indivíduos com pouca familiaridade com tecnologia percebem o que os dispositivos móveis podem fazer e, gradualmente, passam a aproveitar esse potencial.

Talvez a maior evidência de que esse é um segmento que surgiu para se consolidar vem dos bancos: essas instituições já percebem o impacto que esses serviços causam em suas operações. A reação vem na forma de melhorias na prestação de seus serviços, na aquisição de fintechs pelos principais bancos que atuam no Brasil (Itaú Unibanco, Bradesco, Santander, entre outros) ou em investimentos nessas empresas.

De fato, as parcerias parecem ser o melhor caminho para ambos os lados: os bancos continuam mantendo uma estrutura complexa e consolidada, enquanto as fintechs cobrem lacunas ou criam espaços onde antes parecia não haver nada. As instituições financeiras tradicionais que não acompanharem essa tendência, seja melhorando serviços, seja estabelecendo parcerias ou absorvendo tecnologia, correrão um grande risco de perder relevância nos próximos anos.

*Alexandre Prado é coach, consultor, especialista em finanças, escritor, articulista e professor de cursos na área de desenvolvimento humano e organizacional, é Presidente da Núcleo Expansão. Tem no currículo sólida formação acadêmica, incluindo especializações em Nova Iorque, Boston e Oxford e vasta experiência como alto executivo de empresas nacionais e multinacionais.