Moedas empilhadas

Comentários sobre o Boletim Focus: PIB, inflação, juros e dívida pública

26 FEV, 2018 / POR: CARLOS DIX SILVEIRA*

                                   

PIB

A última edição da pesquisa Focus, divulgada segunda-feira (19), alterou a expectativa de crescimento do PIB de 2018 de 2,70% para 2,80% e manteve a de 2019 em 3,00%.

As expectativas de economistas consultados pelo BACEN, semanalmente, estão coerentes as de especialistas de instituições financeiras do mercado. O banco Itaú, por exemplo, divulgou terça-feira (20) projeção de crescimento do PIB de 3% este ano, com viés de alta. Prevê, também, que o cenário fiscal será tranquilo, cumprindo-se as metas com folga como em 2017. Entende que o adiamento da votação da reforma da Previdência não mudará o cenário financeiro previsto, pois os efeitos decorrentes da mesma seriam sentidos nos próximos anos. "É uma derrota para o ajuste fiscal e uma vitória para algumas categorias profissionais que se beneficiam do regime atual, mas não é uma crise fiscal de curtíssimo prazo", diz Mário Mesquita, economista-chefe do banco.

Consideramos, entretanto, que o governo eleito não terá alternativa para equilibrar a situação financeira no futuro, senão aprovar a reforma da Previdência a fim de cumprir com a chamada regra de ouro, que proíbe a emissão de dívida para cobrir gastos correntes e recuperar a confiança do mercado interno e externo. Manifestações de agencias de classificação de riscos, comentadas a seguir, preocupam pelo efeito negativo que pode reverter expectativas positivas de investidores no crescimento da economia.

Veja-se manifestação do analista sênior da Moody's que declarou na mesma terça-feira, que a desistência do governo de tentar aprovar a reforma da Previdência neste ano é ruim para a classificação de risco do Brasil, porque limitará a capacidade de cumprir a regra do teto de gasto. A nota de classificação atual do país é "Ba2", com perspectiva negativa e sem o chamado "grau de investimento", que considera bons pagadores os emissores de dívida. Esta manifestação da agência Moody's pode redundar em rebaixamento da classificação atual. Aliás, a diretora-sênior da Fitch, em nota de terça-feira (20), declarava que "o fracasso em aprovar a reforma da Previdência é um dos pontos que pressionam para o rebaixamento do rating soberano do Brasil", cuja nota hoje é "BB /com perspectiva negativa", fato que acabou ocorrendo sexta-feira (23) quando caiu para "BB/com perspectiva estável". Antecipando-se a estas decisões a Standard & Poor's em 11 de janeiro rebaixou sua nota de "BB" para "BB-" por sentir a dificuldade política do governo para aprovar as reformas essenciais para a solução dos problemas econômicos brasileiros e pelo risco de agravamento de problemas financeiros decorrentes do ano eleitoral. Tal cenário é nocivo para a imagem do país e ameaça o desempenho do PIB este ano.


Inflação

A pesquisa Focus reduziu a expectativa de inflação de 2018 de 3,84% para 3,81% e manteve a de 2019 em 4,25%.

A inflação deste ano deve se manter inferior a meta de 4% como projetam as diversas instituições de pesquisa. Índices do IBGE, como o IPCA-15, demonstram estabilidade na evolução dos preços nos primeiros 45 dias do ano. O desemprego em lenta recuperação, o nível de consumo em alta moderada e a taxa de juros estável, favorecem o comportamento declinante da inflação.

Entendemos como favorável à estabilidade futura dos preços a informação divulgada pelo IPEA, quarta-feira (21), através do Indicador de Inflação por Faixa de Renda, revelando que a taxa de janeiro de 0,23% ficou menor para a parcela mais pobre da população, contra 0,36% da população mais rica, tendência que tem se observado desde o ano passado, influenciada pelo custo dos alimentos. Esta situação vem se mantendo este ano em razão da lenta reversão dos preços dos gêneros alimentícios e de algumas tarifas públicas. No comparativo dos últimos 12 meses, o IPEA constatou que a inflação das famílias de renda muito baixa teve queda maior, caindo de 6%, em 2016, para 2,1% em 2017, enquanto para as famílias com renda maior, a inflação diminuiu de 5,5% para 3,7%. Acreditamos possível uma inflação baixa este ano apesar da ameaça de problemas financeiros, decorrentes do ano eleitoral e do desacreditado governo.


Juros

A pesquisa Focus manteve a estimativa da taxa Selic de 2018 em 6,75% e a de 2019 em 8,00%.

As previsões dos economistas participantes da pesquisa em relação à Selic se mantem inalteradas há mais de um mês. A última reunião do Copom cortou a taxa de juros pela décima-primeira vez consecutiva, que a passou de 7% para 6,75%, parece encerrar o ciclo de cortes este ano, conforme sinaliza a ata da reunião. O grupo Top5 de participantes que mais acertam as projeções da pesquisa estima que a taxa final deste ano seja 6,75% e que a de 2019 fique em 8%.

Entendo que as taxas atuais deverão se manter em razão do ambiente político-econômico conturbado em que vivemos e dos riscos decorrentes do ano eleitoral sob a gestão desacreditada deste governo. O cenário econômico, portanto, não deve se alterar nem estimular redução da taxa de juros, mesmo com o fato de queda do IPCA-15 de fevereiro, divulgado sexta-feira (23|), apresentar alta de 0,38% ante 0,39% de janeiro. O IPCA-15 acumulado em doze meses ficou em 2,86% em fevereiro contra 3,02% em janeiro.

A autonomia do Banco Central retorna à discussão em vários fóruns políticos pela qualidade que agrega no processo de gestão de suas atribuições. O Ministro Meirelles declarou quinta-feira (22), "que o Banco Central autônomo tem maior credibilidade e controla a inflação com mais eficácia". Considero que a autonomia que o banco hoje desfruta contribui para o sucesso da sua gestão, comprovando a necessidade de assegurá-la em lei.


Dívida Pública

A pesquisa reduziu a expectativa da dívida líquida de 2018 de 55,50% do PIB para 55,30% e reduziu a de 2019 de 57,90% para 57,70% do PIB. A dívida líquida do setor público corresponde ao saldo líquido do endividamento do setor público não financeiro e do Banco Central com o sistema financeiro (público e privado), o setor privado não financeiro e o resto do mundo. O saldo líquido é o balanceamento entre as dívidas e os créditos do setor público não financeiro e do Banco Central.

Boletim Focus (original)

*Economista