Uma nova moldura financeira internacional

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25 de setembro de 2009
Por Julio Hegedus Netto*

Mais uma semana em que os mercados voltaram a respirar melhor com as boas notícias vindas dos vários indicadores econômicos e dos bons sinais dos governos e dos policy makers. Por aqui, em destaque, o up grade dado pelo Moody´s ao Brasil a investment grade, os dados externos de agosto, a taxa de desemprego e o Relatório Trimestral de Inflação do Bacen.

No caso do investment grade do Brasil não são necessários grandes comentários, a não ser pelo fato de que este veio com um certo atraso em relação aos outros dois ocorridos há um ano e meio – Fitch e Standard & Poor´s. Além disto, a previsão agora passa a ser de um ingresso maior de recursos externos, já que alguns fundos institucionais só internalizariam recursos no País com a “chancela” de três agências de rating.

No exterior, de relevante, a decisão previsível do Fed, de manter a taxa de juros no intervalo entre 0 e 0,25%, e o encontro do G20 em Pittsburgh, visando um repensar sobre o sistema financeiro internacional. Vejamos, portanto, o que foi destaque na semana que passou.  

  • Mercado de trabalho brasileiro. Em agosto, a taxa de desemprego se manteve estável, registrando 8,1% da PEA, praticamente repetindo o mês anterior (8,0%). Com isto, a população desocupada se manteve estável (1,9 milhão) contra o mês anterior, crescendo 7,8% contra o mesmo de 2008, e à ocupada se manteve estável nas duas bases de comparação. Por fim, o rendimento médio real registrou alta de 0,9% contra julho e de 2,2% contra o mesmo mês do ano passado. Alguma cautela, no entanto, é necessária no mercado de trabalho, visto que pelo Caged a recuperação na geração de empregos formais ainda não chegou a níveis pré-crise, em agosto do ano passado. De novembro de 2008 para agosto deste ano cerca de 34 mil destes empregos foram cortados, enquanto que neste mesmo período, entre 2007 e 2008, a geração destes empregos chegou a 1,3 milhão de novas vagas. Observa-se, no entanto, que o nível de emprego no Brasil acabou menos impactado do que em outros países, até pela decisão do governo de redução da carga fiscal sobre alguns setores produtivos, como automóveis e eletrodomésticos, o que os manteve produtivos, evitando muitas demissões. Mesmo assim, não há como negar que o impacto da crise aconteceu na economia real, não sendo a tal “marolinha” pregada pelo Presidente Lula. Foi muito mais do que isto. 
  • Setor externo negativo. As contas externas fecharam agosto com déficit em conta corrente de US$ 821 milhões, com a conta de capital positiva em US$ 8,3 bilhões, o que elevou o saldo do balanço de pagamentos a US$ 8,1 bilhões. Na conta de serviços, as maiores elevações ocorreram pelo lado do aluguel de equipamentos (+24,8%), royalties (50,8%), computação e informação (17,7%) e seguros (178%). Por outro lado recuaram as despesas com viagens internacionais (12,2%) e nas despesas com transportes (31,3%). As remessas de rendas para o exterior somaram US$ 2,4 bilhões, avançando 3,2% contra o mesmo mês do ano passado. Por fim, o ingresso líquido de investimentos externos diretos registrou US$ 1,9 bilhão e os investimentos em carteira cerca de US$ 6,1 bilhões, confirmando o forte ingresso externo para a bolsa de valores nos últimos meses. As reservas cambiais fecharam agosto em torno de US$ 222 bilhões, obtendo mais US$ 600 milhões nos dados mais recentes.

Para 2010 as previsões indicam uma deterioração externa ainda maior, dado que a economia doméstica deve se aquecer, aumentando a demanda interna e as importações. Nas nossas projeções, o saldo em conta corrente deve fechar este ano negativo em torno de US$ 18 bilhões, indo a US$ 29 bilhões em 2010. Nesta deterioração, a balança comercial deve continuar em queda, devendo recuar ainda mais em função da demanda interna mais aquecida, alavancando as importações. Neste ano de 2009, o saldo comercial foi a US$ 21,33 bilhões até a terceira semana de setembro e deve fechar o ano em torno de US$ 28 bilhões. Outro fator de pressão deve vir pelo lado do aumento das remessas de lucros em função do aumento do faturamento das empresas.

Pelo lado dos investimentos externos diretos, as perspectivas indicam um volume em torno de US$ 25 bilhões neste ano, indo a US$ 38 bilhões no ano que vem. Nestas projeções observa-se que, mesmo com a deterioração externa, a capacidade de financiamento externo não será tão afetada, visto que as projeções de investimentos diretos superam o rombo externo, previsto em US$ 28 bilhões. 

  • Encontro do G20 em Pittsburgh Este foi o terceiro encontro desde a quebra do Lehman Brothers. Poucos avanços houveram, na verdade, a não ser pela necessidade de reforçar a presença dos países emergentes no tabuleiro financeiro internacional. Dentre as negociações ocorridas, numa pauta já definida, alguns avanços cresceram no aumento da participação destes países na cotização do FMI, com o esforço de transferência de 7% nas cotas dos países ricos para os emergentes, com 6% na fatia do Banco Mundial. Outras medidas entraram em pauta, como o debate em torno dos bônus dos executivos, os limites para o endividamento das instituições financeiras, que se alavancariam menos em operações arriscadas, assim como um controle maior sobre os países com suas contas em desalinho. Na verdade, com a economia mundial em franca recuperação, o risco maior foi de que este evento perdesse força, com a complacência de que o pior já passou, não sendo necessárias grandes “reformas urgentes”. É neste ponto que mora o perigo. Como dizem nos provérbios, o “diabo está nos detalhes”. Sabendo-se que muito da recuperação da economia global só vem sendo possível pelas políticas econômicas empregadas, poucas mudanças estruturais foram empreendidas até o momento. A frouxidão fiscal e a monetária, inclusive, podem ser o que faltava para o surgimento de novas bolhas no futuro.

Por outro lado, Barack Obama, na Assembleia da ONU, reforçou sua idéia de multilateralismo, pregando o apoio de todos os países, com cada um dando sua contribuição na superação dos problemas econômicos. Para ele, se cada país se mobilizar na superação dos seus desajustes macroeconômicos, será possível que o todo acabe se beneficiando. Por parte dele, a promessa será reduzir o déficit e a dívida pública dos EUA. Nada mais promissor. Mas será que sairá da retórica para a prática ?


 

Elaborado por Julio Hegedus Netto, Economista-chefe da Lopes Filho & Associados.


* Economista-chefe, Lopes Filho & Associados
jhn0312@gmail.com

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