Dados recentes do IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - mostram que o nível médio de escolaridade do brasileiro subiu nas últimas décadas. Isto significa que o brasileiro tem ficado mais tempo na escola. Os governos municipais e estaduais têm investido recursos no ensino funda-mental e médio. A oferta de cursos superiores aumentou na gestão do governo FHC e mais cursos de mestrado e doutorado têm sido credenciados pelo CAPES. A educação formal na escola ajuda a compreender o mundoe a melhorar o nível intelectual de um povo.
No entanto, um outro tipo de educação, a financeira, é relegada. Não é dada a atenção para um conhecimento financeiro básico que possibilite melhorar as decisões relativas a gastos, poupança, planejamento financeiro e investi-mentos para, com isso, elevar o bem estar. Muitas vezes, o brasileiro enfrenta dificuldades financeiras, entra no limite do cheque especial, por não ter tido informações que auxiliassem a lidar melhor com essas situações. A educação financeira é importante para planejar o futuro próprio e dos filhos, para consumir, para adquirir bens necessários e para investir o dinheiro que sobra.
Muitas pessoas de vários níveis, sejam donas de casa, executivos de empresas, traba-lhadores, profissionais liberais, autônomos ou CLTs, não têm tempo, atenção ou conhecimento para administrar seu próprio dinheiro ou da família.

ADMINISTRANDO DINHEIRO

Administrar o dinheiro significa tomar decisões a respeito do que será feito com os recursos, eliminar desperdícios, saber em que se gasta e prevenir a falta. Para administrar o dinheiro, é preciso que se faça antes um planejamento financeiro. Quanto mais cedo se aprende a planejar, mais fácil vira um hábito. É preciso ensinar os filhos desde a adolescência a planejar financeiramente. Dos 20 aos 30 anos, eles assumem o comando dos seus investimentos; dos 30 aos 45 anos, os gastos aumentam com escola dos filhos, prestação da casa própria e planejar é ainda mais fundamental. Dos 46 aos 60 anos, não se deve descuidar da carteira de investimento, pois está ocorrendo um preparo para a aposentadoria. E, finalmente, dos 60 anos em diante, passa-se a desfrutar da aposentadoria. No entanto, cuidado: os custos com saúde se elevam e deve-se garantir seus rendimentos com investimentos mais conservadores.
O lema é: plante hoje para colher amanhã. Um estudo da Anbid -
Associação Nacional dos Bancos de Investimento - mostra que se a pessoa poupar R$ 414,00 por mês durante dez anos, poderá comprar um imóvel no valor de R$ 80 mil; se poupar R$120,00 por mês durante 1 ano, poderá comprar um aparelho de TV por R$ 1.500,00 e, se poupar R$ 520,00 por mês durante três anos, poderá comprar um carro de R$ 21 mil. Os cálculos levam em conta um ganho real de 8% ao ano.
A peça básica do planeja-mento financeiro é o orçamento pes-soal e familiar. Nele serão definidas as necessidades e planejar seus gastos. O cálculo deve ser simples e dará a dimensão dos ganhos, gastos, dívidas e quanto se precisa poupar para realizar os investimentos ou consumo. São listadas todas as receitas, isto é, entradas de dinheiro, sejam recor-rentes (salários, aluguéis, rendimentos de aplicações), sazonais (13º salário, bônus) ou não-recorrentes (venda de um imóvel ou bem). Em seguida, são enumeradas todas as despesas, sejam recorrentes (despesas da casa, escola, empregada, seguro saúde, prestação do carro), sazonais (IPTU, IPVA, dentista, médico, manutenção do carro), ou não-recorrentes (eventos inesperados ou extraordinários). Uma variante disso é separar em gastos fixos, variáveis, adicionais e extra-ordinários. Um modelo básico desse orçamento está ilustrado na tabela.

FLUXO AVALIA COMPORTAMENTO

O fluxo de caixa é uma avaliação do comportamento finan-ceiro, do que entra e sai do bolso. A diferença entre esses dois fluxos gera um resultado no final do mês, que pode ser investido (quando ocorre sobra de caixa) ou financiado (quando ocorre falta de caixa). Não existe mágica para melhorar o fluxo de caixa. O primeiro caminho é aumentar a receita; o segundo é cortar despesas, que depende de sua disciplina. Pode-se começar pelos gastos desne-cessários, depois cortar aqueles que não ocorrem todos os meses. Viagens podem ser melhor planejadas, comprar roupas com algum intervalo de tempo, ida a restaurantes a cada duas semanas. Por fim, examinar com mais cuidado os gastos variáveis.
Todos temos recursos finitos e precisamos fazer escolhas. Se quiser-mos consumo imediato, teremos um bom jantar, uma roupa nova, um carro zero quilômetro. No entanto, se optarmos por investir esse dinheiro, teremos de volta a quantia inicial mais um prêmio, que virá sob forma de juros nas aplicações e rendimento de aluguel ou ganho de capital nas aplicações em ações ou em imóvel.

• Decisão operacional: quanto da renda familiar deve ser gasta no dia-a-dia em consumo e quanto deve ser economizada para o futuro? Não importa quanto você consiga economizar, o importante é a disciplina de economizar sempre. Como mostrado anteriormente, o tempo é capaz de aumentar um enorme poder de compra a suas economias. Nunca comprometa toda sua renda com o consumo imediato.
• Decisão de financiamento: quando e como usar o dinheiro de terceiros para realizar seus planos de consumo. Não há nada de errado em tomar dinheiro emprestado para realizar a compra de uma casa própria. No entanto, se você já tiver dividas, comece pagando as que têm as maiores taxas de juros.
• Decisão de investimento: como a família deve investir o dinheiro que economizou. Investir é como se vestir. Você pode considerar a moda, mas o principal é se sentir confortável com o que se vai vestir e caber no bolso. Comece estabelecendo seus objetivos de curto prazo e de longo prazo. Os de curto prazo se alteram ou se atualizam conforme vão sendo atingidos. Os de longo prazo são mais permanentes e exigem mais disciplina para serem atingidos. Curto prazo pode ser viagem, troca de carro, reforma na casa. Longo prazo pode ser compra de casa, plano de aposentadoria. A parcela de recursos que a família irá necessitar a curto prazo não deve correr riscos e é investida em alternativas mais conservadoras. Já a parte do dinheiro a longo prazo pode ser direcionada para alternativas que tragam maior retorno, embora mais arriscadas, como fundos de renda variável. Nessa terceira decisão, estabeleça seu grau de tolerância para risco. Como você se imagina perdendo, ainda que tempo-rariamente, uma parte dos seus recursos economizados?
• Começar cedo a investir: é preciso despertar senso da previdência, exaltando a virtude da poupança como instrumento para garantir um futuro tranqüilo.
• Disciplina: quem faz investimento ocasionalmente não consegue o mesmo resultado do que aquele que se programa para fazer aplicações todo mês, por menor que seja o valor aplicado.
• Diversificar: isto visa três objetivos: reduzir riscos; atender a diferentes objetivos de curto e longo prazo e manter um bom nível de liquidez (ativos líquidos e não líquidos).
Matéria publicada na Revista Ações & Mercados em julho de 2006 (edição 3).
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