Bolsa cheia de dinheiro

Fraudes contábeis - O caso alemão da empresa Trebertrocknungs

24 AGO, 2017 / POR: RODRIGO ANTONIO CHAVES DA SILVA*

                                   

Um escândalo empresarial geralmente é gerado por uma fraude. Os grandes acordos ilícitos que provocaram as maiores quebras do mundo, produzindo com isso danos sociais muito grandes. Um desses famosos exemplos é o caso do Consórcio Trebertrocknungs com o Banco de Leipzig. Todos nós sabemos esta entidade, é uma das mais importantes da Alemanha, ao menos era na década de 30, sustentando toda a máquina nazista, e igualmente recursos bélicos do povo alemão. Seu renome fugia dos campos geográficos da Alemanha.

O Consórcio da empresa Trebertrocknungs com o banco de Leipzig, era um acordo para investimentos, fazendo se amontar grandes empréstimos. Os fins no entanto, para o "bolso" dos empresários e donos de tal empresa.

A situação ficou então insustentável para a empresa Treber, os donos que se locupletaram tiveram que "achar uma solução" para "reverter a situação empresarial", porém, por meio do "balanço". Além da ausência de liquidez eficaz, os diretores da empresa, volviam a apresentar ou querer mostrar os balanços com valores "melhores", então pensaram em roubar mais, além dos valores em empréstimos.

O que se fez? Primeiro, mudou a sua razão societária. Em vez de ser uma agência limitada, passou a ser uma sociedade anônima. Aí ela tinha mais liberdade de alterar o seu capital vendendo-o ao mercado. O capital social aumentou em pouquíssimo tempo, pela capitalização artificial gerada pela mesma distribuição no mercado acionário. Estas ações aumentando o valor reduziram a proporção do endividamento, dando maior visão de cobertura e sustentabilidade. Mas ele ainda existia, e tinha que se pagar os dividendos que eram altos. A empresa tinha que sustentar os bônus, os prêmios de ações, mais os valores semestrais de pagamento, o que exigiria mais caixa, até porque a entrada financeira não resolveu o problema geral do volume de liquidez que se era exigido.

Então o que a empresa fez com tal situação? Transformou partes do seu capital em filiais, entregando as suas ações a elas. O balanço passou a ficar muito mais "bonito". Com isso, com empresas fajutas ela aumentou o seu patrimônio líquido, por capitalização artificial, dando mais azo para outras vendas de ações. Desde modo com bases falsas, ela conseguiu não apenas aumentar o patrimônio líquido por operações fajutas, mas inicialmente por ações reais, para empresas que socorriam o seu caixa comprando as suas ações, pensando que ela tinha lucros e patrimônio líquido, denotando a sua fortuna.

Neste ensejo, uma soma de 80 mil marcos alemães que na época seria muito dinheiro - suponhamos o que seria 80 milhões de reais hoje -, reduziram o seu agravo no balanço, por redução de valor a maior do patrimônio líquido.

Mas não parou por aí, para vender mais ações tinha que sumir o alto valor da dívida, então o que foi feito? Outra fraude, debitava-se parte das dívidas das parcelas como se houvessem pago as mesmas, creditava-se uma conta de receita, que não existia, ou de patrimônio social, e debitavam os valores como se fosse créditos.

Logo, as dívidas se transformavam em valores a receber, dando impressão de aumento da liquidez para enganar acionistas.

Então de alteração da razão societária, para vender mais ações e ter capitalização, passaram a criar empresas para aumentar a visão do balanço de aumento de capitalização, e por fim fazendo sumir cerca quase 30% de suas dívidas transformando-as em mais capital subscrito ou receita para forjar uma conta de "créditos a receber".

Quando se descobriu a fraude, já estava totalmente quebrada a empresa Trebertrocknungs, alimentada por grandes maquinações do balanço, sendo um dos casos mais célebres das fraudes do mundo, perdendo apenas para as fraudes atuais do Brasil com alguns partidos políticos, maquinados com grandes empresas.

A fonte da falência é a mesma da fraude, e ambas são ligadas, a se citar este caso importante da história doutrinária das fraudes contábeis existentes no mundo.

O ser o deve ser em matéria de contabilidade

Sabemos que muitos defendem a liberdade de pensamento demagogicamente porque em verdade não observam com holismo, as doutrinas, as escolas, as diversas culturas que permeiam sobre um setor científico, técnico, político, etc. Infelizmente a visão unilateral está presente na Universidade quando alguns cursos se fala da multiplicação dos saberes enquanto não podemos pensar, ou mesmo estudar as diferentes vertentes que existem conforme os países e as culturas.

No momento que isso acontece a ciência, a universidade, vira um tipo de religião, que só aceita que nela está, os efeitos dessa má interpretação são coincidentes até com o terrorismo atual. Claro que esta também faz parte do universum scientia, porém no momento em que teóricos como Miguel Reale dizem que no mundo social os fatos são e devem ser, e grandes epistemológicos como Pooper dizem que os modelos são normais nas ciências sociais, orientadores para o deve ser, devo concordar.

Por entender que a contabilidade é e deve ser, não posso comungar com as posições que querem fazê-la apenas uma descritora dos fatos, contra uma interpretadora desses fatos. O trabalho do contador não termina no balanço, pois como ciência social, tal qual Karl Popper dizia, deve produzir sua visão de interpretação conforme as leituras que faz dos fatos.

Infelizmente certas linhas universitárias querem subjugar os pensamentos apenas numa visão, especialmente, estatística ou americanizada, colocando as outras como inferiores.

Ora isso não é um "deve ser"? Aceitar um ponto de vista não é anti-filosófico mas querer julgar tudo APENAS NUM PONTO DE VISTA, é medíocre e anticientífico. Se os fatos são apenas, não precisa alterá-los, aí a discordância com aquilo que Popper dizia que não existe semelhança clara entre as ciências naturais e sociais.

Pense, pense, ou pense como quiser, mas os fatos são, e são alterados, portanto, devem ser conforme a visão do contador. Se assim não fosse não precisaríamos da prosperidade, da continuidade, e tudo seria apenas descritivo.

Será tão difícil criar modelos de interpretação sendo que ninguém analisar o básico da afirmação? Por este motivo não dissocio as duas funções de analisar o que é, e como deve ser, pelo caráter de instrumentalidade do nosso próprio conhecimento social.

Não são todos os professores que pensam assim, e nem todos os cursos que assim ensinam. Pensar diferente é uma regra não pode ser exceção. Alguns não pensam assim e querem assumir tudo numa visão apenas de "como são", ora este não é um "deve ser"? No momento que admito apenas uma posição tenho um "deve ser". Neste ponto assumir uma linha não é anti-filosófico, mas afirmar que apenas existe uma linha o é.

Por tal motivo os fenômenos são e devem ser porque não há descrição em contabilidade sem explicação ou intervenção geral para a prosperidade, porque não há descrição em contabilidade sem explicação ou alteração geral para a prosperidade.

Entendo que os fatos são e devem ser para a contabilidade, pois, ele se apresentam e podem ser alterados, por isso a contabilidade gerencial, a orçamentologia, os custos, etc. Este é o motivo de muitas teorias bem aceitas nos meios universitários estarem por todos os meios erradas, por admitirem uma dissociação entre as duas atividades humanas de estudar o que é, e como será um fato patrimonial.


*Imortal da Academia Mineira de Ciências Contábeis, representante do Brasil no primeiro Simpósio Internacional das Fronteiras do conhecimento contábil em Huancayo/Peru, ganhador do prêmio internacional de Contabilidade Financeira Luiz Chaves de Almeida.