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Comentários sobre o Boletim Focus: PIB, inflação, juros e dívida pública

23 ABR, 2018 / POR: CARLOS DIX SILVEIRA*

                                   

PIB

A última edição da pesquisa Focus, divulgada segunda-feira (16), reduziu a expectativa de crescimento do PIB de 2018 de 2,80% para 2,76% e manteve a de 2019 em 3,00%. Continuam relativamente otimistas as previsões de crescimento da economia brasileira neste e no ano vindouro. Não só resultante dos dados colhidos pela Focus, como também por pesquisas e estudos de outros órgãos e institutos que acompanham nosso desempenho econômico, embora análises divergentes, também importantes, ocasionalmente são divulgados.

O Monitor Econômico, calculado pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas, divulgou quarta-feira (18) informação de que o PIB cresceu 1,7% no trimestre DEZ 17/FEV18 em comparação com igual período do ano anterior. O Monitor utiliza a mesma metodologia adotada pelo IBGE para o cálculo oficial do crescimento econômico brasileiro.

A FGV entende que todos os indicadores demonstram tendência de crescimento quando analisados por trimestre, destacando-se as atividades de transformação (5,4%) e de comércio (4,7%). A atividade agropecuária apresentou retração de 1,7% após treze meses consecutivos de crescimento e a de consumo das famílias, crescimento de 2,5%. A formação bruta de capital fixo (FBCF) se mantem em rota de crescimento, revelando aumento de 4,4% no trimestre móvel, decorrente do desempenho do setor de máquinas e equipamentos. A atividade da construção continua em queda (1,8%).

Grupo de analistas divergentes da visão mais positiva do nosso crescimento entende que dados da pesquisa Focus, demonstram mudança na tendência do PIB, por exemplo, que reduziu a previsão de crescimento de início de março, de 3% este ano para 2,76%. Outra indicação que preocupa é a do IBC-Br, índice calculado pelo Banco Central, com base em previsões de consultorias e instituições financeiras, que revela contração da atividade econômica de 0,64% em janeiro e uma inexpressiva variação positiva de 0,09% em fevereiro.

Christine Lagarde, diretora-gerente do FMI, em entrevista à imprensa em Washington, disse:

“O que nós finalmente estamos vendo no Brasil é uma retomada, é o crescimento de volta”.

Atribui essa mudança no rumo da economia às reformas adotadas até agora pelo governo, reconhecendo que nem todas foram ainda aprovadas, como a da Previdência.

“É hora de fazer uma consolidação fiscal inteligente, gradual, dada a situação fiscal e o peso da dívida”

Disse Lagarde, referindo-se sobre o crescente endividamento público do governo, o maior entre os países emergentes.O FMI elevou a previsão de crescimento do PIB de 2018 de 1,9%, estimada em janeiro, para 2,3% hoje.

A recuperação econômica brasileira, como já se esperava, será lenta. O ritmo poderá ser agravado pela dificuldade decorrente do ano eleitoral. As perspectivas de uma eleição favorável às necessidades do país são desanimadoras. O quadro eleitoral ainda está indefinido. Espero que pior não fique o ambiente econômico quando se defina o quadro efetivo de candidatos.


Inflação

Reduzida a expectativa de inflação de 2018 de 3,53% para 3,48% e a de 2019 de 4,09% para 4,07%.

Continuam positivas as expectativas de inflação de 2018. Apesar do risco de conturbações decorrentes do ano eleitoral, pesquisas e análise de instituições especializadas têm se manifestado favoravelmente à politica financeira adotada pelo setor financeiro do governo, especialmente pelo trabalho da equipe do Banco Central.

O IBGE informou sexta-feira (20) que o IPCA-15 de abril, índice considerado uma prévia da inflação, teve alta de 0,21% contra avanço de 0,10% em março, registrando o menor índice para o mês de abril desde 2006, quando fechou em 0,17%. O IPCA-15 acumula em doze meses uma alta de 2,80%, abaixo do piso da meta de 4,5% do IPCA, com margem de 1,5% para cima ou para baixo. Conforme o IBGE, em abril os preços que mais subiram foram os de Saúde e Cuidados Pessoais, repercutindo 0,69% no índice geral decorrentes do aumento de planos de saúde de 1,06% e os de medicamentos de 0,63%. A alta de preço do item Alimentação e Bebidas no período, de influência importante no orçamento familiar, foram da ordem de 0,15%, contra queda de 0,07% em março. Destacou-se também o item Habitação com alta de 0,26%, o dobro da variação verificada em março. A tendência de queda da inflação deve viabilizar novo corte na taxa Selic, hoje de 6,5%, na próxima reunião do Copom agendada para maio


Juros

Mantém a estimativa da taxa Selic de 2018 em 6,25% e a de 2019 em 8,00%. A política de juros do Banco Central conseguiu reduzir a taxa Selic para seu menor nível histórico, embora não se tenha traduzido em real benefício para o financiamento de consumidores e de produtores. Ainda temos as maiores taxas de juros do mundo. São muitas as causas que fazem o país manter, historicamente, juros tão elevados. Nosso governo tem uma dificuldade enorme de criar condições favoráveis para que se pratiquem as leis de mercado, para que vigorem taxas de juros civilizadas e o crescimento econômico seja uma constante. A confiança do mercado na politica econômica do governo é indispensável para a confiabilidade das instituições financeiras do país e, consequentemente, viabilizar baixas taxas de juros. Este é o cenário em países ricos onde existe abundância de crédito até com taxas negativas como no Japão e na União Europeia.

A evolução da inflação acumulada nos últimos doze meses de 2,68%, medida pelo IPCA, deve levar o Copom a fazer novo corte na taxa Selic, na reunião agendada para maio. Este corte não deve alterar as taxas de juros praticadas na rede bancária. O cenário econômico atual está contaminado pelo risco decorrente do péssimo ambiente eleitoral, pela queda de consumo do governo, decorrente do vigoroso arrocho fiscal para ajuste das contas públicas e pela consequente lenta retomada da economia.


Dívida Pública

Mantém inalterada a expectativa da dívida líquida de 2018 em 55,00% do PIB e alterou a de 2019 de 57,20% para 57,00 do PIB. A dívida líquida do setor público corresponde ao saldo líquido do endividamento do setor público não financeiro e do Banco Central com o sistema financeiro (público e privado), o setor privado não financeiro e o resto do mundo. O saldo líquido é o balanceamento entre as dívidas e os créditos do setor público não financeiro e do Banco Central.

Boletim Focus (original)

*Economista