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Comentários sobre o Boletim Focus: PIB, inflação, juros e dívida pública

16 ABR, 2018 / POR: CARLOS DIX SILVEIRA*

                                   

PIB

A última edição da pesquisa Focus, divulgada segunda-feira (16), reduziu a expectativa de crescimento do PIB de 2018 de 2,80% para 2,76% e manteve a de 2019 em 3,00%. Continuam relativamente otimistas as previsões de crescimento da economia brasileira neste e no ano vindouro. Não só resultante dos dados colhidos pela Focus, como também por pesquisas e estudos de outros órgãos e institutos que acompanham nosso desempenho econômico, embora análises divergentes, também importantes, ocasionalmente são divulgados. O Monitor Econômico, calculado pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas, divulgou quarta-feira (18) informação de que o PIB cresceu 1,7% no trimestre DEZ 17/FEV18 em comparação com igual período do ano anterior. O Monitor utiliza a mesma metodologia adotada pelo IBGE para o cálculo oficial do crescimento econômico brasileiro. A FGV entende que todos os indicadores demonstram tendência de crescimento quando analisados por trimestre, destacando-se as atividades de transformação (5,4%) e de comércio (4,7%). A atividade agropecuária apresentou retração de 1,7% após treze meses consecutivos de crescimento e a de consumo das famílias, crescimento de 2,5%. A formação bruta de capital fixo (FBCF) se mantem em rota de crescimento, revelando aumento de 4,4% no trimestre móvel, decorrente do desempenho do setor de máquinas e equipamentos. A atividade da construção continua em queda (1,8%). Grupo de analistas divergentes da visão mais positiva do nosso crescimento entende que dados da pesquisa Focus, demonstram mudança na tendência do PIB, por exemplo, que reduziu a previsão de crescimento de início de março, de 3% este ano para 2,76%. Outra indicação que preocupa é a do IBC-Br, índice calculado pelo Banco Central, com base em previsões de consultorias e instituições financeiras, que revela contração da atividade econômica de 0,64% em janeiro e uma inexpressiva variação positiva de 0,09% em fevereiro. Christine Lagarde, diretora-gerente do FMI, em entrevista à imprensa em Washington, disse: “O que nós finalmente estamos vendo no Brasil é uma retomada, é o crescimento de volta”. Atribui essa mudança no rumo da economia às reformas adotadas até agora pelo governo, reconhecendo que nem todas foram ainda aprovadas, como a da Previdência. “É hora de fazer uma consolidação fiscal inteligente, gradual, dada a situação fiscal e o peso da dívida”, disse Lagarde, referindo-se sobre o crescente endividamento público do governo, o maior entre os países emergentes. O FMI elevou a previsão de crescimento do PIB de 2018 de 1,9%, estimada em janeiro, para 2,3% hoje. A recuperação econômica brasileira, como já se esperava, será lenta. O ritmo poderá ser agravado pela dificuldade decorrente do ano eleitoral. As perspectivas de uma eleição favorável às necessidades do país são desanimadoras. O quadro eleitoral ainda está indefinido. Espero que pior não fique o ambiente econômico quando se defina o quadro efetivo de candidatos.


Inflação

Alterou para cima a expectativa de inflação de 2018 de 3,43% para 3,58% e reduziu de 2019 de 4,09% para 4,07%. Declarações do presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, prestadas quarta-feira (11), informa que o país tem colchões para enfrentar a recente volatilidade nos mercados financeiros, como elevadas reservas internacionais e estoque mais baixo de swaps cambiais tradicionais, equivalentes à venda futura de dólares. Acrescentou, também, que não mudou o cenário para a política monetária com o IPCA de 0,09% em março, a menor taxa para o mês desde 1994 e bem abaixo do esperado. O BACEN, conforme seu presidente tem visão de mais longo prazo, isto é, continua enxergando espaço para mais um corte da Selic na próxima reunião do Copom. Reafirma, também, a importância da reforma da Previdência para a recuperação da economia brasileira.


Juros

Mantém inalterada a estimativa da Taxa Selic de 2018 em 6,25% e a de 2019 em 8,00%. Não há dúvida do sucesso da política adotada pelo Banco Central para redução da taxa básica de juros. A queda expressiva da Selic de 14,25% em setembro de 2016, para 6,50% hoje, foi um trabalho meticuloso da operação independente da equipe do BCB. Discute-se, porém, em muitos setores até quando a taxa de juros se manterá em um dígito no Brasil. São muitos os desafios para manter a taxa estável. Como disse o Presidente Goldfajn, para o obeso atingir uma boa redução de peso não é fácil, mas muito mais difícil é manter o peso compatível com suas condições físicas. O economista sênior da OCDE, Jens Arnold, responsável pela análise dos indicadores da economia brasileira, em entrevista à revista Exame, entende que cada vez mais a política monetária vai depender da política fiscal. Ele diz que dois fatores indicam ser possível manter os juros baixos. A Lei de Teto de Gastos foi uma “ótima maneira de forçar um ajuste nas contas públicas, que antes estavam com o pé no acelerador”. “A introdução da taxa de longo prazo em lugar da TJLP também teve um grande impacto, pois era difícil para os agentes de mercado competir com um banco público, como o BNDES, com acesso a fundos muito mais baratos para se financiar.” Sobre os riscos para manutenção das taxas baixas, refere a reforma da Previdência que se não for aprovada, deixará o desafio fiscal cada vez mais complexo. Entende, também, que formalizar a independência do Banco Central melhoraria esse cenário. Oficializar sua independência atenderia às expectativas dos agentes de mercado e, consequentemente, diminuiria a pressão sobre os juros para conter a inflação. Outro item importante é a administração adequada da despesa pública para obter resultados iguais ou melhores com menos gastos. Pelas contas da OCDE, o governo brasileiro poderia economizar até 8% do PIB com mais eficiência nos gastos públicos. O programa Bolsa Família que custa 0,5% do PIB deve ser mantido porque direcionam recursos diretamente à população mais carente, reduzindo a pobreza. Há desperdício no pagamento de aposentadorias precoces, ineficiência de gestão no SUS e na alocação de recursos no ensino público e insuficiência de investimentos na educação infantil que garantiriam melhores oportunidades a mais gentes. Quem acompanha a evolução dos indicadores econômicos brasileiros não pode discordar de uma análise como esta da OCDE.


Dívida Pública

Segue inalterada a expectativa da dívida líquida de 2018 em 55,00% do PIB e alterou a de 2019 de 57,20% para 57,00 do PIB. A dívida líquida do setor público corresponde ao saldo líquido do endividamento do setor público não financeiro e do Banco Central com o sistema financeiro (público e privado), o setor privado não financeiro e o resto do mundo. O saldo líquido é o balanceamento entre as dívidas e os créditos do setor público não financeiro e do Banco Central.

Boletim Focus (original)

*Economista