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Comentários sobre o Boletim Focus: PIB, inflação, juros e dívida pública

09 JUL, 2018 / POR: CARLOS DIX SILVEIRA*

                                   

PIB

A última edição da pesquisa Focus, divulgada segunda-feira (02/07), manteve a expectativa de crescimento do PIB de 2018 de 1,55% e reduziu a de 2019 de 2,60% para 2,50%.

A divulgação de indicadores econômicos de maio e junho, pelas instituições de pesquisa, está demonstrando que os efeitos da greve dos caminhoneiros foram mais graves do que se imaginava. Os problemas de distribuição e suprimento nos diversos setores desestruturaram a cadeia produtiva e de consumo, provocando uma queda da ordem de 10,9% na indústria, maior que a queda provocada em 2008 pela crise financeira internacional. A indústria recuou 6,1% em relação ao desempenho de dezembro de 2016, quando a rigorosa recessão de 11 trimestres foi encerrada, segundo análise do próprio mercado. Setores significativos como os de fabricação e venda de automóveis recuaram, respectivamente, 25,9% e 7,8%. Diante desses desempenhos governo e instituições de pesquisa começaram a revisar suas projeções. Economistas consultados na pesquisa Focus reduziram suas estimativas de crescimento do PIB para 1,5%, ante 2,80% em abril. O Banco Central revisou sua projeção de 2,6% para 1,6%. A greve na verdade reascenderam temores latentes do mercado sobre as perspectivas de recuperação da economia. Fatores adversos representados por um governo desacreditado e indeciso, política econômica internacional conturbada, conflito comercial do governo Trump com China e Europa, agravados por um ambiente eleitoral dominado pela incerteza decorrente da ausência de candidatos com projetos economicamente viáveis, pesquisas eleitorais demonstrando temerária tendência popular, adiam projetos de investimento e retardam o crescimento da economia.

Conforme a Fundação Getúlio Vargas, os indicadores setoriais de confiança de construção, comércio, consumidores, serviços retrocederam a patamares do final do ano passado. Juros mais altos e dólar valorizado também são sintomas do mau humor do mercado.

O que se esperar dessa complicada situação? O governo não tem condições políticas para melhorar este cenário. O legislativo com políticos mais preocupados com inquéritos, processos e reeleição não estão focados nos problemas econômicos do país. Acredito que a solução do problema e o risco de sucesso estejam mesmo no voto dos eleitores, fato que aumenta minha preocupação.


Inflação

Alterada esta semana a estimativa de inflação de 2018 de 4,00% para 4,03% e manteve a de 2019 em 4,10%. A projeção da pesquisa Focus demonstra crescimento desde o inicio do ano. De 30/04 até hoje o índice passou de 3,49% para 4,03%.

O episódio grevista dos transportadores alterou o comportamento da inflação. O desabastecimento do mercado provocou alteração no custo da cesta básica da ordem de 8% no espaço de um mês. O IPCA-15 de junho atingiu 1,11%, maior taxa para o mês desde 1995 e o IPCA fechou o mês, conforme divulgou o IBGE sexta-feira (06), em 1,26% ante 0,4% em maio, maior alta para o mês desde janeiro de 2016. As agências Reuters e Bloomberg indicavam que seus analistas mantinham uma projeção de alta da inflação para o mês de 1,28%. A repercussão do desabastecimento nos preços de produtos de consumo, durante os 11 dias de greve, pode ser avaliada pelos seguintes aumentos: grupo de alimentos e bebidas, 2,03%; leite longa-vida, 15,63%; frango inteiro, 8,02%; batata inglesa, 17,51% em maio e 17,16% em junho; carne bovina, 4,60%. Os preços não retornaram aos padrões existentes antes do evento da greve, mas tudo indica o que possam retroceder lentamente.


Juros

Mantida a estimativa da taxa Selic de 2018 e 2019 em 6,50% e 8%, respectivamente. A estagnação da economia, a paralização dos investimentos de empresários e do próprio governo e as incertezas internas e externas indicam que não deve haver alteração nas taxas de juros no curto prazo.


Dívida Pública

Boletim Focus mamatém a expectativa da dívida líquida de 2018 em 55,00% do PIB e alterou levemente a de 2019 de 57,05% para 57,15% do PIB. A dívida líquida do setor público corresponde ao saldo líquido do endividamento do setor público não financeiro e do Banco Central com o sistema financeiro (público e privado), o setor privado não financeiro e o resto do mundo. O saldo líquido é o balanceamento entre as dívidas e os créditos do setor público não financeiro e do Banco Central.

Boletim Focus (original)

*Economista