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Comentários sobre o Boletim Focus: PIB, inflação, juros e dívida pública

04 JUN, 2018 / POR: CARLOS DIX SILVEIRA*

                                   

PIB

A última edição da pesquisa Focus, divulgada segunda-feira (28), reduziu a expectativa de crescimento do PIB de 2018 de 2,50%, para 2,37% e manteve a de 2019 em 3,00%.

A queda na expectativa de crescimento da economia este ano, revelada pela pesquisa nas últimas semanas, não afetou o resultado do PIB de 0,4% do primeiro trimestre do ano, divulgado quarta-feira (30) pelo IBGE, cujo comportamento foi coerente com as previsões do mercado. Após oito quedas sucessivas, correspondentes à recessão de 2015 e 2016, foi a quinta alta seguida. A alta em relação ao primeiro trimestre de 2017 foi de 1,2%. Infelizmente, os deploráveis eventos ocorridos em maio com a greve dos motoristas e os enormes prejuízos dos setores atingidos, irão provocar uma desaceleração da atividade econômica que frustrará, certamente, o crescimento do segundo trimestre. Não só a Focus incorporou na sua previsão os efeitos negativos da greve, mas, muitas outras instituições financeiras estão revendo suas projeções para o fechamento do PIB deste ano. A Goldman Sachs reduziu de 2,30% para 2,%; o Ibre/FGV, de 2,30%, para 1,90%; a MB Associados, de 2,50% para 1,90%; a Austin Ratings, de 2,80% para 2,30%; o Banco Santander, de 3,2% para 2%, que também reduziu sua estimativa do PIB do segundo trimestre de 0,8%, para 0,2%; e o Banco Safra de 2,8%, para 2%.

O efeito negativo da greve desastrosa será potencializado com a renúncia do presidente da Petrobras sexta-feira (01), com a queda do índice de confiança do mercado no futuro da nossa economia e com a aceleração dos indicadores de inflação. A retomada do crescimento, decisivamente, vai andar em ritmo muito mais lento do que o mercado imaginava e que a economia necessita.


Inflação

Alterada esta semana a estimativa de inflação de 2018 de 3,50% para 3,60% e a de 2019 de 4,01% para 4,0%.

A greve dos transportadores que agitou o país na última semana terá reflexo deletério na inflação de custo da maioria dos setores econômicos. Sofrerão alterações significativas os índices de inflação, de consumo das famílias, do volume e preço de prestação de serviços, de transporte de carga e de pessoas, de comercio de bens perecíveis e de produtos industrializados, podendo se refletir também no comércio exterior.

A matriz de transporte do país, centrada na rodovia e alimentada pelo diesel, é um erro estratégico muito antigo, que a miopia dos políticos não consegue perceber e, portanto, corrigir. A visão dos políticos tende a ter um alcance do tamanho do período eleitoral. A consequência dessa visão restrita se revela, por exemplo, na (o): degradação climática com o aquecimento global; divida pública em crescimento; sistema de previdência insustentável; aumento da desigualdade social; crescimento do desemprego; solução para extinção de funções e profissões provocadas pela evolução tecnológica; e sistema educacional de baixa qualidade desconectado do seu tempo. Estes são problemas que os políticos vêm transferindo de geração para geração, impunemente, com a colaboração da sociedade alienada na hora de votar.

A consequência da enorme dependência do setor de transporte do caminhão e do diesel mantém o risco permanente de repetição desses eventos, por qualquer razão. A crise será atribuída à política de preços dos combustíveis, implantada pela gestão de Pedro Parente, solução mais fácil para eximir o governo de qualquer responsabilidade, como soe acontecer com políticos populistas.

O IGP-M da FGV encerrou o mês de maio com alta de 1,38%, bem acima de 0,57% do mês de abril, refletindo elevada alta das matérias-primas brutas no atacado. A alta superou as expectativas de instituições financeiras que esperavam um incremento menor no índice, como a pesquisa da Reuters que estimava uma variação da ordem de 1,29%. O IPCA de maio vai identificar o custo real da crise.


Juros

Boletim Focus alterou a estimativa da taxa Selic de 2018 de 6,25%, para 6,50% e manteve a de 2019 em 8,00%.

O cenário econômico externo relativo à política de juros permanece inalterado. A tendência do FED é manter mais frequentes as correções dos juros americanos. Os países emergentes, consequentemente, tendem a reajustar seus juros a fim de minimizar a saída de dólares. A taxa Selic não deve sofrer qualquer alteração, por enquanto, especialmente depois da greve dos transportadores que causou prejuízos expressivos ainda não contabilizados. Um aumento da taxa Selic não deve ser afastado caso o IPCA acuse alteração significativa em razão dos prejuízos decorrentes da greve e do aumento do custo dos combustíveis.


Dívida Pública

Mantida a expectativa da dívida líquida de 2018 em 55,00% do PIB e de 2019 em 57,00% do PIB. A dívida líquida do setor público corresponde ao saldo líquido do endividamento do setor público não financeiro e do Banco Central com o sistema financeiro (público e privado), o setor privado não financeiro e o resto do mundo. O saldo líquido é o balanceamento entre as dívidas e os créditos do setor público não financeiro e do Banco Central.

Boletim Focus (original)

*Economista