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Quem são as empresas familiares?

02 de março de 2010
Por Domingos Ricca*


As empresas familiares são a forma predominante de empresa em todo o mundo. Elas ocupam uma parte tão grande da nossa paisagem econômica e social que nem sequer nos damos conta disto.

Nas economias capitalistas, a maioria das empresas se inicia com as ideias, o empenho e o investimento de indivíduos empreendedores e seus parentes. Casais juntam suas economias e dirigem lojas em conjunto. Irmãos e irmãs aprendem o negócio dos pais desde crianças, ficando atrás de balcões ou na plataforma de carga depois da escola.

Fazer com que um empreendimento empresarial tenha sucesso e depois passar de pais para filhos (e, recentemente, filhas) não é apenas um sonho americano. O sucesso e a continuidade das empresas familiares são o sonho dourado para grande parte da população do mundo.

Considera-se que, no mundo, cerca de 70% a 85% das empresas são controladas por famílias. É verdade que muitas delas são pequenas propriedades que nunca irão crescer ou ser passadas de uma geração para outra. Mas também é verdade que muitas estão entre as maiores e mais bem sucedidas do mundo. Estima-se que 40% das 500 maiores empresas listadas pela revista Fortune sejam de propriedade de famílias ou por elas controladas.

As empresas familiares geram metade do Produto Nacional Bruto dos Estados Unidos e empregam metade da força de trabalho. Na Europa, elas dominam o segmento das pequenas e médias, e em alguns países, chegam a compor a maioria das grandes empresas. Na Ásia, a forma de controle familiar varia de acordo com nações e culturas, mas as empresas familiares ocupam posições dominantes em todas as economias mais desenvolvidas, com exceção da China. Na América Latina, grupos construídos e controlados por famílias constituem a principal forma de propriedade privada na maioria dos setores industriais.

Para a maior parte das pessoas, as duas coisas mais importantes em suas vidas são sua família e seu trabalho. É fácil compreender o poder das organizações que combinam ambas as coisas. Estar em uma empresa familiar é algo que afeta todos os participantes. O papel de presidente do conselho é diferente quando a empresa foi fundada pelo seu pai, e sua mãe e seus irmãos participam das reuniões, assim como se sentam em torno da mesa de jantar. O trabalho de um CEO (Chief Executive Officer) é diferente quando o vice-presidente, na sala ao lado, é também a sua irmã mais nova. O papel de sócio é diferente quando o outro sócio e um cônjuge ou um filho. O papel de representante de vendas é diferente quando uma pessoa cobre o mesmo território que há 20 anos era coberto pelo seu pai e há 25 pelo seu avô. Até mesmo passar pela porta da empresa em seu primeiro dia de trabalho, seja numa linha de montagem ou no setor de faturamento, é diferente se o nome acima da porta é o seu.

E esta diferença não é apenas um sentimento. Ela está enraizada na realidade da empresa. As empresas possuídas e administradas por famílias constituem uma forma organizacional peculiar, cujo caráter especial tem consequências positivas e negativas.

Elas extraem uma força especial de história, identidade e linguagem comuns a famílias. Quando dirigentes-chave são parentes, as tradições, valores e prioridades brotam de uma fonte comum. As comunicações, verbais ou não, podem ser grandemente aceleradas nas famílias. Cônjuges e irmãos têm maior probabilidade de entender as preferências explícitas e as forças e fraquezas ocultas uns dos outros. Mais importante, o empenho, até mesmo ao ponto do auto-sacrificio, pode ser solicitado em nome do bem-estar geral da família.

Entretanto, esta mesma intimidade também pode trabalhar contra o profissionalismo do comportamento empresarial. Antigas histórias e dinâmicas familiares podem se intrometer nos relacionamentos de negócios. Pode ser mais difícil exercer autoridade com os parentes. Os papéis na família e na empresa podem se tornar confusos. As pressões da empresa podem sobrecarregar e destruir relacionamentos familiares.

Quando trabalhando mal, é possível criarem-se níveis de tensão, raiva, confusão e desespero, que podem destruir, de forma surpreendentemente rápida, boas empresas e famílias sadias. Algumas tragédias familiares acompanhadas de desastres nos negócios são de conhecimento público. A família Bingham, em Louisville, os Pulitzer e os du Pont são leitura obrigatória.

Infelizmente, os fracassos sensacionais às vezes obscurecem a beleza de empreendimentos familiares bem sucedidos. Quando trabalhando em harmonia, as famílias podem trazer para a empresa níveis de comprometimento, investimento a longo prazo, ação rápida e dedicação ansiados por empresas não-familiares, mas raramente alcançados. As empresas familiares são tremendamente complicadas, mas ao mesmo tempo, decisivas para a saúde da nossa economia e a satisfação de milhões de pessoas.

Todavia, nem sempre os profissionais estão preparados para lidar com a natureza especial deste tipo de empresas familiares. A influência das famílias sobre os negócios que elas possuem e dirigem muitas vezes é invisível para os teóricos e para as escolas de administração.

Os tópicos principais do ensino de administração do comportamento organizacional, estratégia, finanças, marketing, produção e contabilidade são ensinados sem que se diferenciem empresas familiares e não-familiares. Os modelos econômicos subjacentes a maior parte da ciência da administração dependem da intercambiabilidade dos responsáveis pelas decisões, portanto, não faz diferença quem eles são.

Normalmente, as publicações de negócios tratam o envolvimento da família com a empresa como informação anedótica pitoresca e interessante, mas raramente importante.


*Consultor especializado em empresas familiares. Sócio - diretor da DS Consultoria Empresarial e Educacional. Graduado, mestre e PhD em administração; professor de graduação e pós-graduação. Autor de livros sobre os temas: empresa familiar e marketing de varejo.


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