Juros versus inflação: a população sempre paga a conta
Alexsandro Agostini Barbosa (*)
02 de abril de 2004
No primeiro bimestre de 2004, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco
Central do Brasil, órgão que decide o futura da taxa de juros básica (Selic)
do País, manteve a taxa Selic estável em 16,5% ao ano. O argumento apresentado
pela autoridade monetária para justificar a paralisação no processo de redução
das taxas de juros ocorrida em janeiro e fevereiro e que foi iniciado em junho
de 2003, foi que o aumento da taxa de inflação ocorrido em dezembro, janeiro e
também em fevereiro, tem características de um efeito permanente e não
sazonal, contrariando assim todos os analistas de mercado, que defendem que a
inflação tende a se dissipar no curto e médio prazo.
É certo que a ação da política monetária deve ser preventiva para inibir a
elevação generalizada e contínua dos preços de uma economia no sentido de
corrigir movimentos que possam causar distúrbios motivados, principalmente,
pelo aumento da demanda em maior proporção que o da oferta. Neste sentido, é
necessário que a análise sobre o comportamento da inflação em alguns momentos
seja aprimorada, pois se pode cometer um erro grave ao classificar um
movimento sazonal com um movimento permanente de aumento de preços, visto que
a determinação de política monetária no sistema de metas de inflação se apóia
no comportamento do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que é
calculado pelo IBGE e foi criado em janeiro de 1980.
Se a autoridade monetária no ato da análise do comportamento da inflação em um
determinado período indicar que os preços estão em trajetória permanente de
alta - quando na verdade a inflação está sendo pressionada por fatores
meramente sazonais caracterizando um período pontual de alta, como ocorreu em
dezembro/03, janeiro e fevereiro/04 - a decisão de política monetária torna-se
muito mais maléfica do que benéfica à economia.
Visto que o indicador utilizado para balizar a política monetária no sistema
de metas de inflação (IPCA) mede a evolução dos preços de uma cesta de consumo
de uma família com renda mensal entre R$ 240 e R$ 9.600, pode-se afirmar que
não existe aumento de preços via demanda há algum tempo por falta de renda.
A renda média real do trabalhador brasileiro vem em queda livre desde de 1997,
portanto, há mais de 6 anos. Atualmente, a renda média está apenas 2% acima do
valor inicial de julho de 1994 - instituição do Plano Real -, ou seja, em
relação à renda voltamos à estaca zero (R$ 857,7).
A inflação apresentou comportamento de alta nesses meses em virtude de
aumentos localizados e não generalizados como classificou o COPOM, o que
acabaria por comprometer a estabilidade monetária conquistada até aqui (baixo
nível de inflação). Os alimentos, principalmente o grupo in natura (verduras,
frutas e legumes), que foi um dos focos da alta, tradicionalmente tem seus
preços elevados entre dezembro e janeiro em virtude tanto do aumento da
demanda desses produtos para as festas de final de ano, como pela constante
alteração climática que ocorre nesse período do ano (sol e chuvas fortes), que
acabam afetando a oferta desses produtos, não restando outra alternativa aos
produtores senão elevar o preço para compensar o prejuízo.
Entretanto, tão logo a oferta é regularizada, os preços que haviam subido
rapidamente retornaram para níveis mais "acessíveis" ao consumo, como alguns
indicadores parciais referentes de fevereiro e algumas parciais de março têm
demonstrado (ex: IPC-Fipe e IGP-M). O grupo Educação, que também foi um dos
focos de pressão, tem os preços das mensalidades e materiais escolares
elevados no início do ano em virtude também do aumento da demanda, pois é o
período que os pais recebem as listas de materiais escolares e saem às
compras. Nesse ano, especificamente, as mensalidades escolares ficaram ainda
mais salgadas em virtude da elevação da alíquota da Cofins (Contribuição para
o Financiamento da Seguridade Social), que passou de 3% para 7,6% sobre o
lucro líquido. Entretanto, esse aumento é meramente sazonal e será dissipado
já em fevereiro.
Por fim, tem-se o grupo Transportes, que também sofre aumento nessa época do
ano em virtude dos serviços ligados às despesas com veículos como, por
exemplo, IPVA, Licenciamento e Despachantes. Nesse ano, houve o aumento de
preços dos carros novos em torno de 5% que foi ocasionado por um aumento de
quase 12% do aço, que é insumo básico para a produção de automóveis. Ou seja,
não houve aumento de preço por um aumento excessivo da demanda, muito pelo
contrário, segundo a Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos
Automotores), as vendas de autoveículos novos caíram aproximadamente 7% em
janeiro frente a janeiro de 2003.
Como vimos, não há nada que justifique a tensão por parte do Banco Central com
relação ao comportamento da inflação no médio e longo prazo. Porém, essa
tensão tem onerado cada vez mais a população, pois a manutenção dos juros
altos inibe investimentos em mão-de-obra, que se reverte em menor geração de
empregos e, por conseguinte, reduz o padrão de vida da coletividade. Portanto,
a redução da taxa de juros ocorrida em março é um processo que não deve ser
interrompido novamente em prol do interesse nacional.
(*) Economista da Global Invest
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