BC começa a sinalizar flexibilidade
*Por Alexandre Pavan Póvoa
31 de maio de 2004
Independente de concordância ou não de seu teor (seja na totalidade ou em
partes específicas), a ata do Copom de maio foi o documento mais bem escrito
(no sentido de sinalizações mais claras) de toda a gestão de Henrique
Meirelles no Banco Central.
Alguns sinais importantes foram dados, explícita ou implicitamente: a ata
reafirma a parada técnica. Prosseguindo a atitude correta de manter estável a
taxa Selic, o Banco Central reafirma o conceito de “parada técnica”. Ao mesmo
tempo, enfatiza e reenfatiza a confiança na solidez da economia brasileira,
deixando claro, com o exemplo do salário mínimo (item 22), de que a única
forma correta do Brasil reduzir sua vulnerabilidade à turbulência externa
(ajustes na curva de juros norte-americana e no preço do petróleo) é reafirmar
o seu compromisso fiscal e monetário. O que seria totalmente incompatível para
qualquer autoridade monetária do mundo é simplesmente ignorar a forte
deterioração do câmbio e do risco do Brasil oriundos dos ajustes já citados no
mercado externo.
No item 31: “Ademais, a maioria considerou que o grau de incerteza envolvido
nos exercícios de projeção que guiam sua decisão aumentou suficientemente para
recomendar a prática costumeira entre bancos centrais em circunstâncias
semelhantes, no sentido de mover seus instrumentos de política monetária menos
do que o fariam se a incerteza adicional não estivesse presente.”
O Banco Central começa a, informalmente, tentar se libertar parcialmente do
ano-calendário que restringe a flexibilidade do sistema de metas de inflação.
Pela primeira vez, pelo menos de forma explícita, no item 27, o BC deixa claro
que começa a olhar o “horizonte cujos resultados são mais sensíveis às
decisões de política monetária tomadas ao longo dos próximos meses do que os
do ano calendário de 2004”. Este é um sinal importante que não deve ser
ignorado. Em outras palavras, a autoridade monetária começa a desvincular suas
futuras decisões da inflação mais alta observada no primeiro trimestre de
2004, o que faz todo o sentido em um sistema de metas racional.
Terreno para a utilização da banda de alta das metas de inflação está sendo
preparado
Apesar do Presidente Henrique Meirelles ter voltado a afirmar que o Banco
Central continua a perseguir o centro da meta (o que é a postura correta até
que a direção seja oficialmente modificada), o item 23 deixa pela primeira vez
aberto o campo para a utilização da banda de alta no sistema de metas de
inflação. Após deixar claro que “já está na conta do Banco Central” um aumento
de 11,8% (depois do aumento de 1,5% por causa da elevação do custo do álcool,
este número já voltou para casa dos 10%) no preço da gasolina, ressalte-se a
seguinte afirmação: “Evidentemente, se a variação de preços observada nas
últimas semanas se configurar, no médio prazo, como um choque de oferta de
caráter mais permanente, será necessário reavaliar essas projeções e os
possíveis impactos primários e secundários de um choque dessa natureza sobre
os cenários para a evolução da inflação “. Isto, traduzido para o bom
português, significa utilização da banda de alta das metas de inflação, em
resposta à mudança do patamar de preço não só do petróleo, como também da taxa
de câmbio.
Excesso de otimismo em relação à atividade econômica.
Os itens 16, 17 e 18 desfilam um otimismo comum do Banco Central nas atas do
Copom em relação ao desempenho da atividade econômica – “A atividade econômica
continua em recuperação desde o segundo semestre de 2003, como atestam vários
indicadores na indústria, comércio, emprego e crédito”. Apesar
de continuarmos acreditando que estamos em plena fase de recuperação cíclica,
não corroboraramos deste sentimento quase eufórico da autoridade monetária.
Está certo que o PIB brasileiro cresceu 2,7% no primeiro trimestre deste ano
em relação ao mesmo período do ano passado. É o primeiro resultado positivo
depois de uma seqüência de três trimestres em queda na comparação com os
mesmos trimestres do ano anterior. Além disso, em relação ao quarto trimestre
de 2003 na série com ajuste sazonal, o PIB cresceu 1,6%. Apesar do crescimento
positivo, não podemos considerar o número espetacular. Lembremos que o PIB
acumulado nos últimos 12 meses encerrados em março ficou estável, em 0,0%, na
comparação com os 12 meses anteriores.
Adicionalmente, depois de três meses consecutivos de recuperação, o rendimento
médio real teve queda de 0,9% em abril em relação a março e a taxa de
desemprego ficou em 13,10% também em abril, o recorde da pesquisa iniciada em
outubro de 2001. A interrupção na recuperação da renda e o desemprego em
patamar bastante elevado são entraves a uma aceleração no ritmo de crescimento
econômico.
Excesso de otimismo em relação a China.
Uma outra afirmação que não concordamos na ata é a visão do Banco Central
sobre a China no item 24. Acreditar que existe a possibilidade real de uma
economia tão complexa quanto a China desacelerar de forma coordenada e
eficiente o seu crescimento econômico de “9,5% para 7% ao ano”, sem nenhum
tipo de turbulência, é quase ingênuo. A interpretação também otimista em
relação ao efeito pequeno nos preços das commodities é simplesmente
conseqüência da visão macro do cenário-base. Aliás, a ótica também positiva da
ata de abril sobre a curva de juros norte-americana, mostra que o forte do
Banco Central certamente não é a análise do cenário externo. E exatamente
nesta volatilidade reside o grande perigo do ambiente.
*Alexandre Póvoa é diretor do Modal Asset Management
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