Gestão de risco

Gestor de risco, eu?

30 MAI, 2018 / POR: MARCO A. S. MARTINS*

                                   

A consolidação do atual movimento de queda das taxas de juros fará com que o investidor brasileiro se transforme em gestor de risco e não mais em um gestor simplesmente de retorno de títulos públicos e risco soberano. Nas últimas décadas, o investidor brasileiro vivia em uma espécie de paraíso financeiro, onde obtinha elevadas e consistentes rentabilidades reais, com altíssima liquidez e baixa volatilidade, expostos somente ao risco soberano. As carteiras encontravam-se confortavelmente alocadas em títulos públicos federais, com o restante exposto a risco de crédito e uma pequena parte dividida entre ações e investimentos imobiliários.

Os novos tempos vão exigir que os investidores construam adequadamente seu perfil de investimentos, com políticas de investimentos que estabeleçam o quanto o investidor deseja obter de rentabilidade, definam a sua real necessidade de liquidez e fixem o quanto ele aceita suportar de risco, através de um rígido orçamento de risco. Neste contexto, a rentabilidade obtida será consequência de quanto o investidor é capaz de gerenciar adequadamente o orçamento de risco de suas carteiras.

Os conceitos de incerteza e risco estão absolutamente incorporados ao cotidiano do ser humano, na medida em que contratamos seguro, previdência, plano de saúde, etc. No entanto, embora as modernas técnicas de gerenciamento e mitigação de risco estejam consagradas na literatura e no mercado financeiro internacional, a aplicação de tais conceitos no mercado financeiro ainda não foi totalmente incorporada ao dia-a-dia da maioria dos investidores.

Dentre esses conceitos, cabe destacar a definição de risco sistemático, ou seja, aquela parcela de risco inerente a todos os ativos em que o investidor está exposto independentemente do seu nível de diversificação, como por exemplo, uma elevação na taxa de juros americana. Tal fato afetará todo o investidor brasileiro, independentemente do seu nível de diversificação.

O segundo conceito a destacar é o de risco não sistemático, aquele risco inerente ao próprio ativo, ou seja, as características intrínsecas do ativo, como por exemplo, o fato da queda no preço do aço afetar somente as siderúrgicas, o impacto da troca do CEO de uma empresa de capital aberto, etc. O risco não sistemático consegue ser minimizado com o princípio da diversificação não correlacionada.

Um dos conselhos de gestão de investimento mais antigos é aquele que diz "nunca ponha todos os ovos na mesma cesta". Harry Markowitz é o pai das finanças modernas, foi um dos primeiros economistas da reconhecida Universidade de Chicago, nos altos de 1950, a estudar e aplicar conceitos de estatística e economia no mundo dos investimentos, dando origem à famosa teoria dos portfólios. Markowitz introduziu, dentre outras coisas, o conceito da correlação, enfatizando que não basta diversificar, é preciso buscar ativos com correlações negativas.

Na prática, o investidor eficiente é aquele que investe em taxas de juros, ativos cambiais e ações, pois esses ativos são descorrelacionados. O investidor que estrutura uma carteira com fundos IMA-B, ações e fundos imobiliários, estará investindo em ativos altamente correlacionados, gerando uma diversificação ineficiente, pois quando a bolsa cai, o IMA-B cai e os fundos imobiliários perdem valor. Já ao investir em bolsa de valores e ativos atrelados ao dólar, o investidor estará sendo mais eficiente, pois a correlação histórica entre a bolsa brasileira e a cotação do dólar é negativa, ou seja, quando um sobe, o outro cai.

Em síntese, o investidor brasileiro irá aprender a diversificar sua carteira buscando uma composição em ativos com baixa correlação, se possível com correlação negativa, pois aí ele conseguirá maximizar o retorno e minimizar a exposição de risco.


Marco A. S. Martins

Marco A. S. Martins, Prof. Dr.

Mestre em Economia.

Doutor em Administração com ênfase em Finanças.

Professor da UFRGS.