Investidor subindo

Juros menores, investidores mais ricos

21 MAI, 2018 / POR: MARCO A. S. MARTINS*

                                   

A moderna teoria de finanças define que o valor de um ativo é somatório do valor presente das expectativas de fluxos de caixa, descontados por uma taxa capaz de refletir a taxa livre de risco mais o prêmio de risco associado a este ativo. A partir dessa definição é possível considerar que o recente movimento de queda nas taxas de juros no Brasil tem a capacidade de tornar os investidores mais ricos, na medida em que está se descontando os fluxos de caixa dos ativos por uma taxa de desconto menor. Vale ainda lembrar que uma economia com taxas de juros menores tem mais propensão ao consumo e ao investimento privado, gerando fluxos de caixas maiores e com menor nível de incerteza.

Este movimento de queda nas taxas de juros da economia brasileira vem sendo aguardado por muito tempo, pois a estabilização da moeda, ocorrida em 1994, exigiu a necessidade de uma âncora monetária forte, com taxas de juros elevadas, para num segundo momento reequilibrar as finanças públicas. Assim, para que as taxas de juros caíssem, era necessário, dentre outras coisas, a redução das necessidades de financiamento do setor público, bem como da dívida pública e, por consequência, o aumento da eficiência do gasto público. Aí então, com juros menores, seria possível voltar a crescer sem gerar pressões inflacionárias. No entanto, ao longo desse período, não houve um consenso acerca da necessidade do equilíbrio das contas públicas, sendo adotadas apenas medidas superficiais, sem atacar as causas do problema e travar os embates necessários.

O resultado dessa falta de consenso em torno da responsabilidade fiscal é que as taxas de juros caíram numa velocidade bem menor do que se precisava, com ciclos curtos de quedas intercalados por longos períodos de elevações abruptas, de forma que a taxa de juros real média (descontada a variação do IPCA) é de 10,5% ao ano, caindo para 8% ao ano quando examinado os últimos 20 anos, para 6,5% ao ano, nos últimos 15 anos e para 4,5% ao ano, nos últimos 10 anos.

De outro lado, mesmo considerando os recentes movimentos de queda, o Brasil ainda está entre os seis países com maior projeção de taxas de juros real para o ano de 2018. Segundo o Ranking de março de 2018 das taxas de juros reais no mundo, projetado pela Infinty Asset Managment, numa amostra de 40 países, o Brasil deverá encerrar o ano com juros reais de 2,54%, atrás da Turquia, Argentina, México, Rússia e Índia.

Em um momento em que a Nação está rediscutindo os seus paradigmas de gestão pública seria interessante que buscasse um consenso em torno do equilíbrio fiscal e passasse a defender essa bandeira, nos munícipios, estados e União, pois a manutenção da atual tendência da taxa de juros depende muito da estabilidade fiscal.

A reversão da trajetória ascendente da dívida pública poderia redirecionar a liquidez que hoje financia os déficits governamentais das três esferas, para financiar a atividade produtiva, com exigências de taxas de retornos mais próximas dos patamares internacionais, valorizando os ativos brasileiros e tornando os investidores mais ricos e produtivos.


Marco A. S. Martins

Marco A. S. Martins, Prof. Dr.

Mestre em Economia.

Doutor em Administração com ênfase em Finanças.

Professor da UFRGS.