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Crescimento da economia doméstica se garante diante da volatilidade do mercado financeiro

31 de maio de 2010

O ano 2010 foi apontado como um período de recuperação das economias do mundo todo. As perspectivas mais recentes de crescimento para o PIB brasileiro alcançam os 8%, em linha com China e Índia. Notícias de alguns países pertencentes à União Europeia colocam em dúvida até que ponto a economia real brasileira consegue ficar isenta. No mercado financeiro, os efeitos já são evidentes. Até maio, o Ibovespa vinha apresentando variações positivas. Neste mês, acumulou uma queda de mais de 10%.

Durante uma palestra na sede gaúcha da Câmara Americana de Comércio (Amcham), o economista sênior do Citibank no Brasil, Stephan Kautz, declarou o otimismo da instituição no país. A expectativa é que o PIB possa crescer até 8% neste ano. Um incremento também deve acontecer nas economias europeias mais sólidas, como Alemanha, Bélgica, Inglaterra e Holanda, nas quais o mundo continuará vendo a retomada esperada para este ano. Por outro lado, está claro que isso não vai acontecer nos países mais citados nos noticiários internacionais no último mês. Nas contas do Citibank, a Grécia vai decrescer 3,5%, Portugal, 1,5%, e Espanha, 0,5%.

As notícias de medidas contra a extensão da crise não acalmaram o mercado, já que há muitas dúvidas quanto a real eficiência delas. Para Kautz, o pacote é forte e vai garantir a sustentabilidade das dívidas da Zona do Euro nos próximos anos. Além disso, vai trazer uma mudança no paradigma da UE: a centralidade do Banco Central e uma regulamentação mais rígida, já que a situação chegou a esse ponto pela falta de disciplina de países como a Grécia, que, apesar de comporem o grupo, não estavam cumprindo as exigências. No entanto, toda essa recuperação deve levar cerca de dez anos. Tempo considerável diante da perspectiva de volta de crescimento no curto prazo.

Discussão sobre os efeitos no Brasil

Para o Brasil, é nesse processo de retomada que está o perigo. A queda da atividade na União Europeia influencia em parte a atividade produtiva por aqui, já que 25% das exportações vão para lá. O cenário de quase recessão das economias pode trazer maior aversão ao risco. Isso eleva a volatilidade dos mercados financeiros, provoca saída do fluxo de capital e desvaloriza o câmbio. Na visão do Citibank, o mercado financeiro não deve ser tão atingido, já que o motor de crescimento tem sido a economia doméstica. Uma forte queda do preço das commodities também não é esperada pelo banco, já que essas matérias-primas são fortemente influenciadas pelas economias chinesa e indiana, que devem continuar crescendo.

O diretor técnico e analista gráfico da Leandro&Stormer, Alexandre Wolwacz, observa que há mais de 20 anos existe uma sazonalidade nos mercados financeiros das principais economias mundiais. Um dos ciclos mais clássicos é o de 9,3 anos. “Há forte correlação dos anos que terminam em zero para marcação de “topos de mercado” na análise do mercado através dos gráficos. Logo, esses períodos são característicos de maior probabilidade de topo do que de fundo no Índice Down Jones (principal índice da bolsa de valores de Nova York). “No Brasil, há pouca história na nossa base de dados, mas sabemos que os anos 80, 90 e 2000 marcaram topos”.

Considerando a análise gráfica – que não relaciona qualquer desses eventos macroeconômico - ao contar do fundo que chegou o Ibovespa no ano de 2008 até o topo do mercado em abril de 2010, serão 390 dias, com 145% de alta. Dessa forma, de acordo com Wolwacz, podemos esperar um ano de 2010 “lateral”, ou seja, sem uma sustentação de alta ou de baixa. “No início de 2011, devemos perder o suporte do ano de 2010 e iniciar um canal de baixa. Seguindo nessa movimentação até outubro de 2012”, acredita o analista. Esse é a movimentação de mercado mais provável, pela ideia de sazonalidade de longo prazo, reforça o analista. A oscilação do Ibovespa em pontos poderia ficar entre os “fundos” de 45.900 e 52.000 em 2010 (ou seja, os níveis mais baixos do índice).

No entanto, esse cenário de longo prazo precisa ser acompanhado com o de prazo mais curto, sinaliza o diretor da Leandro Stormer. Sua expectativa é de alta do Ibovespa nas próximas semanas, com retorno do mercado até próximo do topo de 72.220, mas sem superar essa resistência. “No curtíssimo prazo, continuo considerando os suportes de 58.000 e 72.200 pontos do Ibovespa e acredito que alguns papéis irão permanecer dentro de suas tendências de alta de prazo mais longo, mesmo que o mercado inicie um processo de correção. Entre essas ações consideradas contra cíclicas estão VAL5 e CSN3”, detalha Wolwacz.  

Para o economista do Citibank, Stephan Kautz, o principal canal de transmissão da volatilidade externa não é a bolsa, e sim o câmbio. A redução do fluxo de investimentos externos pode impactar a conta final da balança de pagamentos. No entanto, as perspectivas do Citibank continuam otimistas de que a relação entre o real e o dólar não vai ser muito distante de R$ 1,80. O desempenho da economia interna do Brasil é a justificativa. O crescimento esperado de 8% para o consumo doméstico e 20% para a demanda produtiva interna são indicadores estimulados pela continuidade do crédito, com papel de destaque para o BNDES e dos bancos públicos. A alta dos juros não deve frear esses impulsionadores, diante de uma queda constante da inadimplência e da taxa de desemprego, de acordo com o Citibank.

Leia o artigo escrito pelo economista-chefe da consultoria Lopes Filho&Associados, Júlio Hegedus Netto, sobre a saúde e os possíveis efeitos da crise europeia nas contas brasileiras:Dilemas domésticos

Elaborado e editado pela jornalista Grazieli Inticher Binkowski
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