- Durante uma palestra na sede gaúcha
da Câmara Americana de Comércio (Amcham), o economista sênior do
Citibank no Brasil, Stephan Kautz, declarou o otimismo da instituição
no país. A expectativa é que o PIB possa crescer até 8% neste ano. Um
incremento também deve acontecer nas economias europeias mais
sólidas, como Alemanha, Bélgica, Inglaterra e Holanda, nas quais o
mundo continuará vendo a retomada esperada para este ano. Por outro
lado, está claro que isso não vai acontecer nos países mais citados
nos noticiários internacionais no último mês. Nas contas do Citibank,
a Grécia vai decrescer 3,5%, Portugal, 1,5%, e Espanha, 0,5%.
As notícias de medidas contra a extensão da crise não acalmaram o
mercado, já que há muitas dúvidas quanto a real eficiência delas.
Para Kautz, o pacote é forte e vai garantir a sustentabilidade das
dívidas da Zona do Euro nos próximos anos. Além disso, vai trazer uma
mudança no paradigma da UE: a centralidade do Banco Central e uma
regulamentação mais rígida, já que a situação chegou a esse ponto
pela falta de disciplina de países como a Grécia, que, apesar de
comporem o grupo, não estavam cumprindo as exigências. No entanto,
toda essa recuperação deve levar cerca de dez anos. Tempo
considerável diante da perspectiva de volta de crescimento no curto
prazo.
Discussão sobre os efeitos no Brasil
Para o Brasil, é nesse processo de retomada que está o perigo. A
queda da atividade na União Europeia influencia em parte a atividade
produtiva por aqui, já que 25% das exportações vão para lá. O cenário
de quase recessão das economias pode trazer maior aversão ao risco.
Isso eleva a volatilidade dos mercados financeiros, provoca saída do
fluxo de capital e desvaloriza o câmbio. Na visão do Citibank, o
mercado financeiro não deve ser tão atingido, já que o motor de
crescimento tem sido a economia doméstica. Uma forte queda do preço
das commodities também não é esperada pelo banco, já que essas
matérias-primas são fortemente influenciadas pelas economias chinesa
e indiana, que devem continuar crescendo.
O diretor técnico e analista gráfico da Leandro&Stormer, Alexandre
Wolwacz, observa que há mais de 20 anos existe uma sazonalidade nos
mercados financeiros das principais economias mundiais. Um dos ciclos
mais clássicos é o de 9,3 anos. “Há forte correlação dos anos que
terminam em zero para marcação de “topos de mercado” na análise do
mercado através dos gráficos. Logo, esses períodos são
característicos de maior probabilidade de topo do que de fundo no
Índice Down Jones (principal índice da bolsa de valores de Nova
York). “No Brasil, há pouca história na nossa base de dados, mas
sabemos que os anos 80, 90 e 2000 marcaram topos”.
Considerando a análise gráfica – que não relaciona qualquer desses
eventos macroeconômico - ao contar do fundo que chegou o Ibovespa no
ano de 2008 até o topo do mercado em abril de 2010, serão 390 dias,
com 145% de alta. Dessa forma, de acordo com Wolwacz, podemos esperar
um ano de 2010 “lateral”, ou seja, sem uma sustentação de alta ou de
baixa. “No início de 2011, devemos perder o suporte do ano de 2010 e
iniciar um canal de baixa. Seguindo nessa movimentação até outubro de
2012”, acredita o analista. Esse é a movimentação de mercado mais
provável, pela ideia de sazonalidade de longo prazo, reforça o
analista. A oscilação do Ibovespa em pontos poderia ficar entre os
“fundos” de 45.900 e 52.000 em 2010 (ou seja, os níveis mais baixos
do índice).
No entanto, esse cenário de longo prazo precisa ser acompanhado com o
de prazo mais curto, sinaliza o diretor da Leandro Stormer. Sua
expectativa é de alta do Ibovespa nas próximas semanas, com retorno
do mercado até próximo do topo de 72.220, mas sem superar essa
resistência. “No curtíssimo prazo, continuo considerando os suportes
de 58.000 e 72.200 pontos do Ibovespa e acredito que alguns
papéis irão permanecer dentro de suas tendências de alta de
prazo mais longo, mesmo que o mercado inicie um processo de correção.
Entre essas ações consideradas contra cíclicas estão VAL5 e CSN3”,
detalha Wolwacz.
Para o economista do Citibank, Stephan Kautz, o principal canal de
transmissão da volatilidade externa não é a bolsa, e sim o câmbio. A
redução do fluxo de investimentos externos pode impactar a conta
final da balança de pagamentos. No entanto, as perspectivas do
Citibank continuam otimistas de que a relação entre o real e o dólar
não vai ser muito distante de R$ 1,80. O desempenho da economia
interna do Brasil é a justificativa. O crescimento esperado de 8%
para o consumo doméstico e 20% para a demanda produtiva interna são
indicadores estimulados pela continuidade do crédito, com papel de
destaque para o BNDES e dos bancos públicos. A alta dos juros não
deve frear esses impulsionadores, diante de uma queda constante da
inadimplência e da taxa de desemprego, de acordo com o Citibank.
Leia o artigo escrito pelo economista-chefe da consultoria Lopes
Filho&Associados, Júlio Hegedus Netto, sobre a saúde e os possíveis
efeitos da crise europeia nas contas brasileiras:Dilemas
domésticos