27/12/2010

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Continuidade de crescimento interno justifica perspectiva positiva para Bolsa


Para 2011, as projeções dos analistas fundamentalistas apontam para uma trajetória crescente, justificadas na pujança do mercado consumidor brasileiro e na expectativa de um cenário político interno mais definido. No entanto, análises gráficas mostram um cenário baixista para as principais ações listadas na BM&FBOVESPA.

O mercado financeiro brasileiro termina com viés positivo em 2010. A expectativa de incremento do PIB de 7,5% neste ano, apurada pela Febraban¹, de 10% nas vendas do varejo e de 9,2% da renda real até o final do mês de novembro, descontada a inflação², somadas ao crescimento de 42% do lucro líquido e 36% da geração de caixa, medida pelo Ebitda, das empresas listadas no Ibovespa ³ (em relação ao mesmo período do ano passado) justificam a avaliação, mesmo diante da queda de 1,3% do Ibovespa até final de novembro, quando o índice alcançou os 67.705 pontos.

Na visão do diretor de economia e riscos da Sicredi Asset Management, Paulo Barcellos, entre os sinais positivos para o próximo ano estão as medidas adotadas pelo Banco Central (BC) para conter a emissão de crédito e a liquidez no mercado brasileiro, como o aumento do recolhimento compulsório pelos bancos, além da expectativa de subida da taxa básica de juros (Selic) ao longo de 2011. A projeção do Sicredi é que a Selic chegue aos 12,75% ao final do ano, um pouco acima da perspectiva da Febraban de 12,25%. Para o Sicredi, a Selic poderá ser elevada já na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), que acontece no dia 19 de janeiro, em 0,5%, deixando o patamar de 10,75%.

Ao contrário da premissa “aumento de juros, queda na bolsa”, a subida da Selic deve beneficiar empresas voltadas à economia doméstica, acredita o diretor do Sicredi. “Esses papéis já estão sofrendo com o efeito do crescimento da inflação visto no decorrer de 2010”, justifica. A instituição acredita que o IPCA vai fechar 2010 em 5,9%, bem próximo da banda máxima de 6,5% da política de metas inflacionárias. A Pesquisa da Febraban revela uma perspectiva de 5,2% em 2010 para o índice que mede a subida dos preços, e de 4,9% em 2011.

Apesar do quadro inflacionário, as empresas voltadas ao consumo interno foram as que mais valorizaram na BM&FBOVESPA em 2010. A taxa média de variação do Índice de Consumo (ICON) foi de 21,3% até novembro de 2010 em relação a 2009. A continuidade do bom desempenho desse mercado, das empresas voltadas a ele e de suas respectivas ações listadas no mercado de capitais sinalizam uma trajetória crescente também para a bolsa brasileira em 2011, na concepção do Sicredi. Conforme cálculos da instituição, a valorização do Ibovespa deve ficar entre 15% e 20% ao longo do ano de 2011. Isso significa, em relação ao fechamento de novembro, que o índice poderia alcançar os 77.860 pontos ou os 81.246 pontos.

A projeção da Corretora Ágora é mais otimista. Conforme a analista Cristiane Viana, o índice tem potencial para os 86.000 pontos. A expectativa é sustentada pelos mesmos indicadores internos que, de alguma forma, beneficiam as ações listadas na bolsa brasileira. A corretora acredita que a Selic não ultrapassará os 11% em 2011.

Além disso, na concepção da corretora, os ativos brasileiros podem ser considerados baratos na comparação com outros países emergentes. Segundo cálculos da Ágora, o múltiplo de todas as empresas listas na BM&FBOVESPA, representado pelo indicador Preço – Lucro (P/L), que considera em quanto tempo é possível recuperar o investimento em ações, é de 12,6 vezes, comparado à média 15,2 vezes de outros países. No entanto, conforme Cristiane Viana, não há motivos para que as empresas brasileiras tenham este desconto, especialmente depois dos lucros divulgados no terceiro trimestre e da expectativa de crescimento de 29% dos lucros no ano de 2011 (em relação a 2010).

Na avaliação do Sicredi, a bolsa brasileira não está tão barata assim. No entanto, a expectativa de ganhos crescente ao longo de 2011 deve reduzir ainda mais o seu P/L. Conforme o diretor de recursos de terceiros, Júlio Cardozo, o P/L potencial para o próximo ano está entre 9,9 vezes e 9,1vezes.

O desempenho positivo esperado é fortalecido por um cenário político interno mais conhecido, considerando os sinais dados pela presidente eleita de continuidade das políticas econômicas. Da mesma forma como o cenário internacional, mesmo que ainda sem saída anunciadas para a crise dos países europeus, já tem causas e efeitos conhecidos, diferentemente do que se tinha no primeiro semestre de 2010.

Justificativas baixistas
A análise feita pelo sócio fundador da Leandro&Stormer, Alexandre Wolwacz, é contrária e baseada em indicadores gráficos. Conforme sinalizações de análises técnicas, o Ibovespa tem forte perspectiva baixista para 2011. “O cenário menos pessimista é que o índice poderia chegar aos 59 mil pontos no final do ano que vem e a 52 mil pontos em 2012”, detalha Wolwacz. Segundo o analista gráfico, a projeção é fortalecida pelo ciclo decenal do Ibovespa, que usualmente marca “topos” nos anos com final zero, seguido de baixas nos anos de final 01 e 02. E quando alcança o fundo máximo, que seria em dois anos, ele começaria a trajetória de alta.

O sócio da Leandro&Stormer lembra que a análise gráfica não considera indicadores macroeconômicos, nem micro, e que análises de longo prazo são mais complicadas, porque podem ser afetadas por mudanças no meio do caminho. E acredita que o que poderia invalidar a análise anterior seria se o Ibovespa ultrapassasse o topo dos 74 mil pontos ainda no curtíssimo prazo.

“Vale lembrar ainda que no longo prazo, alguns ativos têm força para persistir numa posição altista – como vimos nos anos de 2000 e 2002, quando o mercado caiu”, alerta o analista. Conforme indicadores gráficos, os papéis que tendem a manter uma direção altista são os exportadores e os que persistem pagando bons dividendos.

Para saber quais setores se destacarão em 2011 leia a matéria publicada no www.acionista.com.br  na editoria de Setor&Cias.

¹A pesquisa mais recente da Federação Brasileira de Bancos (Febraban) foi divulgada ao mercado no dia 21.12.2010.
²Dados divulgados pelo Sicredi em palestra realizada em Porto Alegre (RS) no dia 15.12.
³Cálculos da Corretora Ágora.

Elaborado e editado pela jornalista Grazieli Inticher Binkowski
redacao@acionista.com.br 


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