Fintechs

Fintechs de investimento prometem retorno de até 250% do CDI. Mas são seguras?

25 JUL, 2018 / Jornalista Responsável: Grazieli Binkowski

                                   

Assim como avançam no mercado de crédito, financiamento e conta corrente, as fintechs (startups financeiras com atuação digital) chegam ao mundo dos investimentos prometendo novidades. A cada dia surgem novas empresas que oferecem serviços através de tablets, celulares e computadores, ampliando o rol de aplicações financeiras. Como diferencial, prometem rentabilidade mais alta do que a média do mercado, possibilidade de pequenos investidores aplicarem em títulos imobiliários ou financiarem franquias, além de mecanismos que ajudam o investidor a tomar melhores decisões de compra e venda de ações.

"É indiscutível que as soluções trazidas pelas fintechs facilitam a vida. Se anos atrás era normal ver os bancos com filas intermináveis, hoje é só dar alguns cliques no celular para ter acesso a diferentes alternativas de investimentos", compara Victor Farias, o CEO do pag!, fintech de conta bancária, cartão de crédito e outros serviços financeiros.

No Brasil, as fintechs são reguladas pelo Banco Central (BC) e o Conselho Monetário Nacional (CMN). Elas precisam seguir as mesmas regras dos bancos convencionais para atuarem no mercado de crédito e investimentos. As fintechs de investimentos são licenciadas pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) para atuar como consultoria, gestora ou corretora de investimentos. Ou seja, o "xerife" do mercado regula o lastro e as garantias apresentadas em suas aplicações.

Assim como nas corretoras e bancos tradicionais, nem todos investimentos que oferecem têm retorno garantido, e há aplicações com risco elevado e não cobertas pelo Fundo Garantidor de Crédito, o FGC. A Kavod Lending, por exemplo, anuncia que seus produtos podem trazer retorno entre 170% a 250% do CDI, formando linhas de financiamento para franquias. A empresa diz que o risco é reduzido em razão de garantias aos investidores, como recebíveis de cartão de crédito, veículos ou imóveis – não há cobertura pelo FGC. Ou seja, é o mesmo risco de uma operação de crédito privado, em que se aplica em um fundo que empresta dinheiro a uma empresa, e espera-se que ela quite a dívida nos termos acordados. Para operacionalizar estas linhas, a Kavod Lending promove campanhas de financiamento coletivo para empreendedores que buscam recursos para expandir seus negócios.

"Qualquer pessoa física ou jurídica pode financiar diretamente pequenas e médias empresas com investimento mínimo de R$ 5 mil, e receber o valor atualizado em até 24 meses. O retorno é em taxas pré-fixadas a partir de 1,10% ao mês", explica Renato Douek, fundador da startup.

Em outro exemplo de fintech de investimento, o Urbe.me possibilita que qualquer pessoa aplique na construção civil. Trata-se de um financiamento coletivo em empreendimentos imobiliários, a partir de R$ 1 mil por pessoa. O investidor receberá um título de participação sobre as vendas e rendimentos periódicos do empreendimento. A empresa passou a oferecer, por via contratual a seus clientes, garantia de rentabilidade mínima de até 110% do CDI, embora possa superar o número. Por outro lado, alerta que as rentabilidades mais altas prometidas podem nem sempre se concretizar, pois dependem das condições de mercado.

Em um terceiro exemplo, a SmarttBot oferece uma plataforma para traders operarem na bolsa de forma automatizada. O investidor configura sua estratégia por robôs que funcionam a partir de um algoritmo online, e enviam as ordens diretamente para as principais corretoras do país.

Na análise do educador financeiro André Bona, o leque de aplicações abertos pelas fintechs merece ser olhado com carinho, em particular as alternativas de financiamento coletivo.

"As fintechs de empréstimo coletivo têm inovado na forma como empresas captam investimentos. E o investidor pode ajudar a financiar uma startup ou um novo negócio com potencial emprestando dinheiro", explica.
"As fintechs estão surgindo como uma resposta às angústias de consumidores que estão cansados da burocracia, geralmente associada às formas mais convencionais de se investir dinheiro", completa.

Além disso, as fintechs começam agora a criar suas próprias corretoras, um passo determinante para ampliar o leque de opções no mercado de ações brasileiro. No último dia 17, chegou oficialmente ao mercado, com lançamento na [B]³, a Toro Investimentos, primeira fintech do Brasil a ser autorizada pelo Banco Central a abrir sua própria corretora. A empresa nasceu como companhia de educação financeira, e recebeu um aporte de R$ 46 milhões de um grupo de investidores, incluindo o presidente-executivo da Localiza, Eugênio Mattar, por uma participação ao redor de 25% no ano passado. A Toro promete um "modelo disruptivo" do ponto de vista de simplificação do acesso dos clientes à plataforma de compra e venda de ações, que deixa de ter o formato dos modelos tradicionais de homebroker, e terá foco no investidor pessoa física.

Destaques

* Levantamento divulgado pelo Radar FintechLab, que atua no mercado de bancos digitais brasileiro, mostra que o número de empresas atuando nesse segmento no país passou de 244 para 332 ao longo do ano passado, um crescimento de 36%;

* Segundo estimativas do banco norte-americano Goldman Sachs, nos próximos dez anos, as empresas de tecnologia financeira no Brasil devem gerar uma receita próxima de US$ 24 bilhões.