Mais empresas na Bolsa

Economistas preveem "boom" de novas empresas na Bolsa nos próximos anos

04 JUL, 2018 / Jornalista Responsável: Grazieli Binkowski

                                   

A queda na Taxa Básica de Juros (Selic), a perspectiva de continuidade nos ajustes fiscais e as esperanças em uma retomada prolongada da economia reforçam a crença de alguns analistas de que a [B]³ pode ter, nos próximos anos, um "boom" de novos IPOs (Oferta Inicial de Ações, na sigla em inglês). Uma simulação realizada pelo Centro de Estudo de Mercado de Capitais da Fipe (Cemec) e publicada na edição deste ano do Anuário Estatístico das Companhias Abertas da Associação Brasileira das Companhias Abertas (Abrasca), utilizando dados como redução no crédito do BNDES, queda dos juros e crescimento da economia, projeta que a quantidade de empresas na bolsa brasileira poderá quase dobrar nos próximos 10 anos, com 317 novas companhias.

Aumentar a oferta de ações no pregão brasileiro é um anseio antigo de investidores. Menos de 5% das grandes empresas brasileiras têm capital aberto, enquanto que apenas 8% delas fizeram emissões de ações ou de títulos de dívida no período de cinco anos anteriores a 2015, conforme o Cemec. Ao final de 2017, havia 344 empresas listadas na Bolsa – o equivalente ao que pregões da China recebem a cada ano. Trata-se de um recuo que leva a bolsa brasileira ao mesmo índice de 2005, antes da "explosão" de novas ações em 2006 e 2007, quando 404 papéis eram negociados. Em 2018 apenas 3 companhias abriram capital (Notre Dame Intermédica, Hapvida e Banco Inter). Uma das empresas interessadas em fazer o IPO, a Ri Happy, maior rede de lojas de brinquedos do Brasil, desistiu desse tipo de captação de recursos e encerrou seu processo na Comissão de Valores Mobiliários, a CVM, que regulamenta o mercado financeiro.

Na mesma linha de escassez de negócios, havia apenas 680 mil pequenos investidores cadastrados da [B]³ em junho de 2018. A base de investidores pessoas físicas, que é um fator relevante para sustentar um mercado de acesso dinâmico, é de apenas 0,3% da população, número ínfimo diante da média de 5% dos emergentes, 7% na Índia, 13% nos EUA, 5% na China. Além disso, a fuga do investidor estrangeiro para mercados mais seguros atrapalha que as negociações na bolsa deslanchem.

"A permanência de elevadas taxas de juros por períodos longos é o principal fator de inibição do desenvolvimento do mercado de capitais brasileiro. Para competir junto aos investidores com títulos públicos, por exemplo, as ações deveriam oferecer prêmio de risco excepcionalmente elevado", explica o economista Carlos Antonio Rocca, diretor técnico do Cemec e um dos autores do estudo, ao lado do supervisor do Centro, Lauro Modesto.

Mas agora os ventos parecem começar a soprar a favor da bolsa. A atual Selic em 6,5% ao ano leva investidores a buscarem no mercado de capitais opções para aumentar a rentabilidade de seu patrimônio. Ao mesmo tempo, a seca dos recursos do BNDES deixa as empresas com menos opções de linhas de financiamento oficiais, levando-as a buscar o mercado de capitais. O estudo do Cemec aponta que em 2017 as emissões primárias e secundarias atingiram R$ 194,9 bilhões, valor que é o maior desde 2005. Atualmente, sete empresas estão na fila dos IPOs da CVM. Elas atuam nos setores imobiliário, de saúde, financeiro, farmacêutico e no varejo de produtos esportivos.

"A evolução dos principais indicadores de atividade do mercado de capitais em 2017 evidencia uma resposta positiva à queda de juros e à redução da oferta de crédito subsidiado do BNDES", aponta Rocca.
"A simulação feita para os próximos 10 anos mostra um potencial de crescimento de 136 % em volume do mercado de capitais, e que nesse mesmo prazo o número de empresas listadas da Bovespa poderia quase dobrar", projeta.

Mas para que a bolsa brasileira atinja seu potencial é preciso que as próprias empresas mudem sua forma de pensar e traçar estratégias de captação de recursos, analisa o consultor financeiro André Bona, autor do Blog de Valor. Um importante motivo por trás do baixo número de companhias com capital aberto na Bolsa é o mito de que a bolsa serve apenas para corporações multinacionais gigantescas, e que podem pagar caro pelo seu IPO.

"Com isso, grandes empresas brasileiras deixam de explorar novas possibilidades de captação de recursos, como abrir capital de empresa na Bolsa de Valores", explica.

Atualmente, o custo para a abertura de capital está em torno de 4,8% do valor da oferta inicial no Brasil, conforme um estudo da Deloitte.

Com este receio, as companhias acabam abrindo mão das duas grandes vantagens de ingressar no mercado de capitais, esclarece Bona: acessar uma fonte relativamente barata de financiamento e melhorar sua imagem perante o mercado.

"Ao negociar papéis na bolsa, a empresa ganha em transparência e melhora sua imagem perante os investidores e o público em geral. Ser uma empresa listada na bolsa significa que a instituição atende a uma série de exigências feitas pela CVM", diz Bona.