China x EUA

EUA x China: guerra comercial afeta o Brasil

02 MAI, 2018 / Jornalista Responsável: Grazieli Binkowski

                                   

A guerra comercial entre China e Estados Unidos está longe de um apaziguamento – e isso pode tocar diretamente no seu bolso. Em meados de abril, em São Paulo, o ex-diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), Pascal Lamy, chegou a dizer que

"pensar em uma OMC sem os EUA talvez seja uma opção necessária".
O que poderia parecer absurdo em outro contexto vem à tona em razão do combate aos produtos "made in China" pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Desde março, ele começou a colocar em prática sua política 'America First' (América Primeiro), que tem entre seus focos fortalecer a indústria americana em detrimento de produtos importados.

A gênese do problema está na ida, nas últimas décadas, de muitas fábricas americanas à China, fechando postos de trabalho nos EUA. Estas diminuíram seus custos de produção e passaram a exportar para o mundo inteiro, inclusive os Estados Unidos. Tal situação criou um déficit comercial dos EUA com a China na faixa de U$ 400 bilhões, conforme Leandro Ruschel, diretor da Liberta Global, escola de investimentos internacionais do Grupo L&S. Tentando aquecer a economia americana, Trump determinou, ainda no início de março, a imposição de tarifas que envolvem uma sobretaxa total de US$ 50 bilhões em vários produtos chineses.

A China respondeu em um primeiro momento colocando tarifas à importação de carne suína e outras commodities feitas na América. E, no início de abril, apresentou novas tarifas em produtos como aviões e equipamentos. Poucos dias depois, Trump voltou à carga dizendo que preparava uma nova rodada de sobretaxas na ordem de US$ 100 bilhões. O problema é que o reflexo da troca de "gentilezas" tem afetado duramente o mercado mundial, inclusive a bolsa brasileira.

"O mercado financeiro, tanto global quanto o brasileiro, está sendo impactado pela guerra comercial entre EUA e China, com a China abrindo o leque de bens americanos que seriam taxados para forçar a mão numa negociação",
reforça Ruschel.

As consequências mais preocupantes de um fechamento de mercados e do enfraquecimento econômico da China é de desvalorização de indústrias e de empresas de alimentos na BM&FBovespa. Pedro Paulo Silveira, Economista-Chefe da Nova Futura Investimentos, avalia que o clima de tensão se mantém, e a economia continua incerta. Os principais mercados globais ainda estão se afetando e o Brasil também sente resquícios desse clima.

"O conflito na bolsa nacional ocorreu principalmente no início de abril. Atualmente, os mercados internacionais estão sendo afetados, e tendem a continuar, pois os impactos são muito grandes no volume de comércio internacional. Por exemplo, tarifas sobre o comércio de um país ou de outro implicam muito no volume negociável e na atividade econômica",
diz Silveira.

A boa notícia nesta 2ª, 30/04/2018, veio com a manutenção da isenção de cobrança de taxas adicionais para a importação do aço e alumínio pelos EUA até 01/06/2018.

No entanto, a situação está longe de criar um clima de pânico, dizem especialistas. O mercado internacional, apesar de ter sentido este impacto negativo e visto suas bolsas caírem forte nas aberturas de sessões nas últimas semanas, tem se recuperado na expectativa de uma solução negociada, afirma o especialista Ruschel. Pelo menos por enquanto.

"Não há um pânico generalizado, pois há expectativa de uma solução negociada. Se esta solução não acontecer e houver uma escalada desta guerra comercial, teremos uma situação mais complicada, tanto para o mercado americano quanto para os outros mercados, incluindo o Brasil",
aponta Ruschel.

Lamy afirmou, em sua passagem por São Paulo, que embora haja preocupação, vê riscos limitados de um agravamento na guerra comercial entre EUA e China. Isso porque, afirma, há forças dentro dos EUA que veem uma guerra comercial como potencialmente destruidora para a economia americana. Além disso, os chineses são "extremamente racionais" e se comportarão de modo a não haver uma escalada, avalia Lamy.