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Consórcios crescem em 2003, mas Cofins ameaça setor
- 14 de janeiro de 2004
- 14h00
A perspectiva é incerta para o Sistema de Consórcios brasileiro em 2004,
apesar do crescimento registrado em 2003. A retomada econômica tende a aquecer
o consumo e favorecer a ampliação dos negócios. Em contrapartida, o aumento de
mais de 150% da alíquota da Contribuição para Financiamento da Seguridade
Social (Cofins) ameaça penalizar os prestadores de serviços.
Nos dez primeiros meses do ano passado as vendas de novas cotas subiram 4,6%
frente a igual período de 2002. O acumulado no período atingiu 1,34 milhão de
unidades, enquanto no ano passado somou 1,28 milhão. Também o volume de
participantes registrou incremento. Até outubro de 2003, havia 3,08 milhões de
consorciados, 4% a mais que os 2,96 milhões de doze meses anteriores.
As motocicletas e motonetas lideram o Sistema de Consórcios com 56,1% de
participação sobre as vendas. Nos primeiros dez meses do último ano a elevação
do total de participantes no segmento foi de 9,4%. Em outubro de 2002, eram
1,58 milhão de consorciados. No mesmo mês de 2003, o total superou 1,73
milhão. As vendas cresceram 4,4%, subindo de 726 mil entre janeiro e outubro
de 2002 para 757,8 mil no idêntico período do mês seguinte.
O setor de veículos automotores também obteve incremento em diversos outros
sub-setores. Nos veículos leves novos - que inclui automóveis, camionetas e
utilitários - houve alta de 14,9% nas vendas de novas cotas. Em dez meses do
ano passado foram vendidas 287,9 mil cotas, enquanto no ano anterior o
montante de vendas foi de 250,5 mil. O crescimento anual em torno de 15% das
novas cotas de automóveis não tem se modificado nos últimos quatro anos, mesmo
com as sucessivas crises da indústria automobilística.
A comercialização de novas cotas de veículos pesados evoluiu de 31,9 mil para
35,2 mil, o que representa crescimento superior a 10,3%. O total de
participantes subiu 2,5%, de 112,8 mil para 115,7 mil, comparados os meses de
outubro de 2003 frente ao exercício anterior.
O segmento de imóveis se destaca pelo forte incremento de 47,3% de venda de
novas cotas acumulado em dez meses do último ano face ao mesmo intervalo de
2002. Ainda em outubro passado o número de participantes ativos ultrapassou os
166,4 mil, configurando uma alta de 39,3% em relação ao idêntico mês do ano
anterior. A expansão dos consórcios de imóveis pode ser observada nos últimos
cinco anos de forma permanente, no entanto, tende a se intensificar com a
queda da taxa básica de juros, que chegou a máxima de 2003 em 26,5% ao ano e
se encontra atualmente em 16,5% ao ano, o que representa uma redução de 10
pontos percentuais.
O segmento de eletroeletrônicos foi o único a apresentar percentuais de
retração em 2003. A presidente da Associação Brasileira de Administradoras de
Consórcios (Abac), Consuelo Amorim, diz que a queda ocorre em função da
mudança no perfil das vendas. "Anteriormente os clientes adquiriam produtos
individuais através de consórcios, com valor absoluto reduzido. Agora, crescem
as compras de produtos em conjuntos", explica. Ao invés de adquirir uma
televisão, por exemplo, as pessoas passaram a comprar um home theater
completo. Desta forma, o valor médio da cota de consórcio no segmento, que era
de R$ 350,00, chegou a variar, em 2003, entre R$ 4 mil e R$ 5 mil. Percentuais
adequados de crescimento só poderão ser estimados depois de decorrido um ano
da adaptação.
Os resultados atuais demonstram redução dos negócios, contudo, a expectativa é
de que os números evoluam a partir deste ano. Em outubro último, o total de
participantes ativos somou 187,8 mil, uma baixa de 28,1% frente aos 261,5 mil,
do ano anterior. Entre janeiro e outubro de 2003, havia um total de 143,3 mil
de novas cotas vendidas, 21% a menos que as 181,2 mil de 2002.
Mais instituições passam a atuar no setor
A evolução dos consórcios num período de estagnação econômica do País leva a
cada vez mais instituições atuarem no setor. O Banco do Brasil planeja para o
final do primeiro trimestre o início das operações da BB Administradora de
Consórcios S/A. A nova subsidiária atuará em todo o país, comercializando
através da rede de agências correspondentes bancários e demais canais de
atendimento dos clientes do BB e do Banco Popular do Brasil (BPB), que deve
começar a operar a partir de abril. A instituição possui autorização para
trabalhar em todos os segmentos de consórcios, mas num primeiro momento deve
focar em turismo, eletro-eletrônicos, eletrodomésticos, automóveis e
motocicletas.
O gerente executivo do BB Consórcios, Fábio C. Danin Euzébio, explica que o
provável aumento de financiamentos, em razão da queda da Selic, não deve tomar
espaço dos consórcios. "A taxa de administração média dos automóveis, por
exemplo, costuma ficar em 11% e 12% ao ano. A Selic ainda teria que recuar
muito para que os financiamentos chegassem a concorrer com os consórcios. Além
disso, o público de cada um dos produtos é diferenciado. O cliente do produto
consórcio é aquele que planeja sua compra e sabe aguardar o suspense da data
em que será contemplado" diz.
Euzébio lembra que o aumento da Cofins terá impacto reduzido para as operações
de consórcios do Banco do Brasil. "Quem já tem grupos em andamento tem maiores
problemas pela impossibilidade de alteração dos contratos. Com a elevação da
alíquota as margens de lucro ficam muito ajustadas. Por isso, para suportar o
aumento, só com muito volume, com ganhos em escala" resume o gerente do BB.
Elevação da Cofins reduz margens do setor
A entrada em vigor da Medida Provisória 135, em fevereiro, deverá ter impacto
negativo sobre o sistema de consórcios. A medida estabelece o aumento de 3%
para 7,6% a Cofins do setor de serviços, no qual se incluem as administradoras
de consórcios. Ao longo de toda as discussões em relação às mudanças
constitucionais houve negociações a fim de excluir os consórcios da elevação
da alíquota. Segundo as empresas do setor, existem cerca de 3 milhões de
consorciados e os prazos dos contratos chegam a até 120 meses. Como os acordos
já firmados não podem ser alterados, e não há a cobrança de juros na
atividade, a possibilidade de repasse do aumento dos custos é nula.
Segundo a presidente da Abac, os ganhos das administradoras de consórcios vem
da taxa de administração, que em média é 20% da operação. Deste valor, cerca
de 5% são as despesas com a própria venda. "Dos 15% restantes ainda é preciso
pagar todas as despesas administrativas. Sendo assim, as margens do setor são
muito justas, por isso o impacto da Cofins é tão forte."
O próprio líder governista no Senado, Aloizio Mercadante (PT-SP), reconheceu
ao longo das discussões da reforma tributária que, para alguns segmentos da
área que não consomem insumos, a alíquota proposta de 7,6% da Cofins seria
pesada e, assim, tais áreas poderiam receber um tratamento diferenciado.
Apesar das dificuldades previstas para o sistema de consórcios brasileiro com
a elevação da alíquota, no segundo turno da votação da reforma tributária, o
Senado optou pela permanência da cobrança da nova Cofins sobre o setor. A
alternativa para as administradoras de consórcios é tentar negociar uma medida
provisória paralela a ser incluída no novo texto constitucional.
"Continuaremos tentando sensibilizar as autoridades na tentativa de minimizar
os prejuízos, inclusive evitar demissões" afirma Consuelo.
O consórcio é uma forma de autofinanciamento, que resulta da união de pessoas
físicas ou jurídicas, em grupo fechado, cuja finalidade é formar poupança
destinada à compra de bens móveis duráveis, imóveis e serviço turístico.
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