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A crise dos países do grupo PIGS e o mercado financeiro

 
O mercado financeiro está vivendo um conturbado clima de desconfiança com a anunciada crise de endividamento de alguns países da Europa - que analistas americanos denominam de grupo PIGS (Portugal, Itália, Grécia e Espanha) ou, ainda, PIIGS quando a Irlanda nele é incluída. A insegurança dos credores desses países, que têm em comum expressivo nível de endividamento, provocou a fuga dos investidores estrangeiros dos mercados da zona do euro e a transferência de suas aplicações para os títulos do Tesouro Americano. Essa migração acabou revelando a fragilidade financeira de alguns países europeus que ainda não se recuperaram da crise americana do crédito imobiliário. O que há afinal com esses países? A crise localizada no grupo PIGS pode se tornar global? O Brasil pode ser afetado por essa crise? São perguntas como essas que preocupam hoje todos os mercados e em especial o nosso

Como conseqüência da grave crise econômica global de 2008 piorou as contas dos governos ao redor do mundo pela queda no ritmo de arrecadação de impostos, provocada pela diminuição do volume de negócios e do nível de emprego. O expressivo aumento dos gastos públicos para tentar reagir à crise, com estímulo ao crédito, ao consumo e à produção. Quando um governo gasta mais do que arrecada, forma-se um déficit público que precisa ser coberto com empréstimos. É comum que um governo permaneça permanentemente ou por muito tempo com saldo negativo se o mantiver sob controle e contar sempre com credores e investidores que considerem o país um pagador confiável e proporcionar lucro ao capital investido.

Acontece que em alguns países da região do euro o desequilíbrio provocado pela crise geral afetou os limites estabelecidos pelo BCE – Banco Central Europeu para o déficit público, que passou de 2% do PIB em 2008 para 6% em 2009, no conjunto dos países da Europa. Os países que compõe o grupo PIGS, que já apresentavam déficit superior a média, tiveram seus limites sensivelmente agravados. Na Grécia, por exemplo, o déficit cresceu de 7,7% para 12,7% do PIB. Na Espanha passou de 4% para 11,4% do PIB, maior déficit da sua história econômica atual. O combate ao déficit público exige, geralmente, aumento de impostos e redução de gastos e investimentos públicos. Trata-se de medidas radicais que o gestor político em geral não gosta de aplicar pelo desgaste que geram na sua imagem, mas que, neste caso, não oferece alternativa. Espera-se que este desequilíbrio não se espalhe por outros países europeus e que Portugal, Itália e Espanha consigam implantar programa austero de recuperação financeira, providência que a Irlanda já adotou e que o BCE considerou impressionante pelo volume de cortes na despesa com salários e previdência do setor público.

Segundo manifestação de renomados analistas internacionais, como John Williamson, conhecido como o "pai" do Consenso de Washington, "
a expectativa é que haja um plano de resgate, mas como um complemento e não como uma alternativa para o programa de ajuste apresentado pela Grécia e aprovado pela União Européia. Quanto à queda do mercado de capitais, elas parecem refletir a evidência de que a Europa, principalmente os PIGS, terão um crescimento mais lento do que havia sido previamente esperado. Quando os investidores estrangeiros são atraídos para os fundos por causa de um declínio em outros lugares, eles procuram vender as ações no mercado acionário brasileiro. Essa é a razão principal pela qual os mercados de ações tendem a se mover em sincronia".

Célebre por criar, nos anos 90, a sigla Bric (Brasil, Rússia, Índia e China) para designar o grupo de países emergentes que passariam a ocupar uma posição de destaque no panorama mundial, o economista do Goldman Sach, Jim O’ Neill, entende que “é provável que a situação piore, antes de melhorar". Países europeus não devem entrar em default, mas a situação fiscal ainda vai causar preocupação por algum tempo. A crise fiscal que abate a Europa é preocupante, mas não deve arrastar nenhum país para a moratória. O'Neill acredita, porém, que será necessário muito mais esforço das nações que se encontram no epicentro das preocupações globais para que os problemas sejam superados. Acredito que a Grécia precisa de ainda mais disciplina fiscal. Penso que Portugal precisa fazer mais do que está propondo. A bolsa brasileira está caindo porque entramos num período de redução global do risco. A atual desvalorização da Bovespa não se trata de uma bolha. O Brasil está se transformando em um país diferente, mais substantivo e forte".

O economista Paul Krugman, colunista do New York Times, escreve que “
a falta de disciplina fiscal não é toda, ou mesmo a principal fonte dos problemas europeus – nem na Grécia, cujo governo foi realmente irresponsável. Não, a verdadeira história por traz da bagunça européia não está na irresponsabilidade política, mas na arrogância das elites políticas, que levaram a Europa a adotar uma moeda única muito antes de o continente estar pronto para isso.”

Até que a situação européia se estabilize as bolsas se manterão voláteis acompanhando a mobilidade dos capitais internacionais que vivem clima de aversão ao risco e buscam refúgio seguro para seus investimentos. É um período de crise e de oportunidades. Muita cautela e boa informação são requisitos indispensáveis para evitar as turbulências do momento.
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05/03/2010