GOL

As estratégias para voar mais alto que a concorrência

Analistas: Felipe M. Silveira (CNPI) e Daniel C. Liberato

16 JAN, 2017 / Jornalista Responsável: Grazieli Binkowski /

A Gol Linhas Aéreas Inteligentes S.A. opera como uma companhia aérea de baixo custo e tarifas reduzidas na América Latina. Possui a maior oferta de assentos com o selo "A" da ANAC, disponibilizando 800 voos diários para 63 destinos domésticos e internacionais na América do Sul e Caribe. A empresa também oferece transporte de carga e serviços de voo fretado. Foi fundada em 2001 e sua sede fica em São Paulo. A companhia está listada no Nível 2 de Governança Corporativa da BM&FBOVESPA desde o lançamento simultâneo de suas ações nas bolsas de valores brasileira e norte americana, em 2004.

Quais os fundamentos para o crescimento da sua receita?

Basicamente, em razão do maior número de passageiros em seus voos e do crescimento no valor médio das passagens. A demanda de passageiros está bastante relacionada à atividade econômica e, portanto, nos últimos anos tem se mostrado retraída. O preço médio dos tickets aéreos também tem caído em função do acirrado cenário concorrencial doméstico. Dessa forma, a elevação da taxa de ocupação das decolagens é um importante indicador da evolução operacional. Nos dados do terceiro trimestre de 2016, essa taxa estava situada em 79,8%, representado um acréscimo de 1,2 ponto percentual em comparação ao mesmo período de 2015.

Como as recentes mudanças nas regras da aviação, no que tange à cota de bagagem e também participação maior de capital estrangeiro, podem refletir nos resultados ao longo do ano?

A primeira medida tende a ter pouco impacto sobre os resultados da companhia, pois, com a nova regra, há expectativa de que as tarifas praticadas pelas companhias aéreas caiam. Além disso, as empresas poderão conservar a gratuidade na cobrança da bagagem e fazer disso um elemento de competitividade de mercado. Já a segunda medida deverá influenciar mais os números da companhia no longo prazo por conta da possibilidade de troca de controle e/ou injeção de recursos de investidores externos, especialmente da já acionista Delta Airlines, que detém quase 10% do capital da Gol.

A "queima de caixa" da companhia segue elevada ao ponto de preocupar os investidores?

Com a recente reestruturação da dívida e melhora operacional, a companhia tem conseguido registrar fluxo de caixa positivo, porém ainda é bastante pequeno. A perspectiva é que isso se inverta mais adiante, sobretudo pela amortização das dívidas. Os ciclos operacional e financeiro da companhia têm aumentado, levando à maior necessidade de capital de giro, enquanto que o nível de investimento permanece relativamente estável (e alto), bem como seus financiamentos possuem custo de dívida elevado em função dos baixos ratings de crédito, tanto nacional quanto internacionalmente.

Quais os fatores de risco para a companhia?

Cenário competitivo, custos operacionais e endividamento. A concorrência de outras aéreas tem um impacto relativamente expressivo para a companhia em comparação com as outras empresas do setor, uma vez que a Gol possui uma proporção maior de voos de conexão entre os aeroportos mais movimentados do Brasil, nos quais a concorrência é mais intensa. Por outro lado, seus concorrentes possuem um percentual de voos que conectam aeroportos menos movimentados, onde a concorrência é inexistente ou reduzida. Além disso, existe a possibilidade de consolidação no setor aeroviário brasileiro e mundial, seja por meio de aquisições, joint ventures, parcerias ou alianças estratégicas que poderão prejudicar o desempenho da Gol. Em termos de custos, a companhia tem gastos significativos com operações de arrendamento de aeronaves e turbinas atrelados à cotação da taxa de câmbio (R$/US$), bem como parte expressiva de sua dívida está em moeda estrangeira. Ou seja, uma depreciação do real frente outras divisas certamente impactará os seus números.

O que podemos esperar das ações negociadas na BM&FBovespa no médio e longo prazos?

Volatilidade. Apesar das medidas positivas, como a abertura ao capital externo, inúmeras incertezas perduram sobre as perspectivas operacionais e financeiras da Gol. A demanda e o cenário competitivo deverão se recuperar e amenizar, respectivamente, no longo prazo (entre três e cinco anos). Enquanto isso, teremos a continuidade da “guerra de preços” no setor. A adequação da oferta e a reestruturação operacional tendem a contribuir para os resultados financeiros da Gol, mas a questão do endividamento nos parece ainda bastante delicada e que será uma constante preocupação dos seus acionistas.