Cielo

Uma gigante ameaçada

Analista: Felipe Silveira (CNPI)

05 ABR, 2017 / Jornalista Responsável: Grazieli Binkowski /

Empresas de meios de pagamento como a Cielo têm enfrentado grandes desafios. E o panorama para os próximos anos não é muito animador. Por mais que a recuperação no consumo deva trazer algum alento, muitos segmentos têm visto uma piora no ambiente competitivo, como é o caso da Cielo, que ainda ostenta liderança em seu setor. A mesma revolução trazida pelo uso dos cartões que diminuiu muito a utilização de dinheiro, deve se repetir com o uso de novas tecnologias, como a utilização dos smartphones como meio de pagamento, por exemplo, que tende a trazer uma importante concorrência aos cartões no longo prazo.

Quais são os fatores de crescimento da sua receita?

O principal fator de crescimento continua sendo o aumento da utilização do plástico como meio de pagamento no Brasil. E quando falamos plástico, já estamos indo além da utilização física dele, uma vez que o pagamento virtual tem se tornado cada vez mais comum e abre uma oportunidade grande (embora com um risco do mesmo tamanho). A Cielo também tem buscado diversificar sua atuação, com aquisições e desenvolvimento de novos negócios. Como a Cateno, joint venture com o BB para a gestão de contas de pagamento do Ourocard do BB.

Qual é a sua situação financeira?

A situação financeira da companhia é bem confortável. Ela tem uma sólida posição de caixa, e seu endividamento líquido corresponde à geração de caixa operacional (medida pelo EBITDA) de apenas um ano. Após o anúncio da joint venture com o BB, a alavancagem da companhia se elevou, o que foi contornado com redução no dividendo mínimo obrigatório. Em 2016, a empresa distribuiu 32,5% do seu lucro na forma de proventos. Antes da JV, o mínimo em estatuto era de 50%.

Como a empresa está posicionada em seu setor?

A Cielo é líder entre os adquirentes, mas a companhia tem perdido market share, assim como a Rede, do Itaú, para concorrentes menores. Getnet, do Santander, e PagSeguro, do UOL, têm sido bastante agressivos para ganhar mercado nos últimos períodos, e isso tem afetado os resultados das duas gigantes do setor. Além disso, o fim da exclusividade de bandeiras em máquinas de cartão afeta diretamente a Cielo, por conta da Elo. Esse é um ponto a ser monitorado no decorrer do ano.

Quais são os fatores de risco da empresa?

O setor tem acompanhado o crescimento exponencial das fintechs, segmento das startups que criam inovações na área de serviços financeiros, com processos baseados em tecnologia, e representam uma ameaça para o modelo de negócios das empresas do setor. Levantamento feito pelo Fintechlab mostra que, das fintechs brasileiras (ou estrangeiras com escritório aqui), 31% são voltadas para meios de pagamento, o maior percentual entre todos os segmentos de serviços financeiros. São empresas como o Pagseguro, o Mercado Pago, a iZettle e a Braspag, empresa da própria Cielo. Claro que isso também se perfaz como a maior oportunidade para as empresas do setor. Todas têm investido muito em tecnologia ou em aquisições para se preparar para essa realidade, mas é inegável que esse é um fator que aumenta bastante o risco inerente aos papéis do setor.

O que podemos esperar da(s) ações negociadas(s) na BM&F Bovespa no médio e longo prazo?

Como comentamos nas demais respostas, o ambiente no segmento da Cielo se complicou bastante nos últimos anos, com a quebra da exclusividade das bandeiras e, principalmente, pelo acirramento da competição com o crescimento de GetNet e PagSeguro. Além disso, um importante fator de incerteza, que pressiona os papéis da companhia, são os fatores regulatórios. São questões como o prazo de pagamento para os lojistas, que teriam um efeito bem grande no resultado da empresa. Dessa forma, mesmo que a recuperação do varejo seja um ponto positivo para os próximos períodos e a utilização dos cartões ainda deva mostrar crescimento no Brasil, os fatores de risco devem continuar pressionando bastante os papéis da companhia no médio prazo.